quinta-feira, 25 de maio de 2017

Não há inocentes


Ela me disse que, pelo que eu contava, as coisas pareciam finalmente estar se ajeitando. Eu sorri por dentro. Aquele sorriso que desperta o frio e o calor nas estranhas. Um sorriso de quem aquiesce ao mesmo tempo que discorda com todo o corpo. Pensei: será que nós, logo nós, acreditamos nisso? Me parece que apenas queremos - e como queremos - acreditar.

Será que um dia as coisas se ajeitam pra gente como nós? Será que ainda não aprendemos que, sim, elas se acomodam, mas que logo encontramos um jeito de bagunçá-las até que desmoronem? Será que gente como nós, que deixou pedaços de si por aí, com outro alguém, consegue um dia, de verdade, se sentir plena, inteira, bem?

Há dias que sim. Aqueles em que as formas parecem se ajeitar perfeitamente nos espaços. Em que o sol que brilha no céu queima a pele sem nos atravessar. Em que a chuva escorre pelos ombros, não resfria o nosso interior. Há dias em que, sim, o mundo está em ordem.

Em outros, no entanto, as vísceras gritam. Como loucas, repetem incessantemente que não se esqueceram. Não se esqueceram do que sentiram, da adrenalina que as percorreu, do curto-circuito que se faz memória recente, ainda que tenha acontecido há tanto tempo. É quase como se o estranhassem, pedissem por ele.

Sofrer, no final das contas, parece um vício. E gente como nós morre se o larga, morre também se o mantém. Colocamos a culpa no que poderia ser o tabaco, o álcool, a heroína, mas sabemos que, no fundo, ela é nossa. Não há inocentes.

Pode ser que as coisas estejam, sim, finalmente se ajeitando. Torço para que, pelo menos dessa vez, a gente demore menos para fazê-las desmoronar. Gente como a gente tem jeito, não.





quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ansiedade e culpa

Reprodução/Tumblr

A ansiedade nunca está só. Surge sempre de mãos dadas com uma série de sentimentos: raiva, medo, frustração, tristeza. Às vezes ela deixa a gente extremamente agressivo. Em outras, triste que só. Mas o único sentimento que não solta nunca a mão dela é a culpa.

Quando eu era menor, eu me sentia menos culpada. Ainda que a ansiedade frequentemente me fizesse sentir uma pessoa horrível, eu não sabia que era ela a responsável por aquilo. Eu era apenas estressada demais, grossa demais, dramática demais. Eu me sentia, é verdade, culpada por isso - me sinto até hoje. Mas eu não estava com ansiedade; eu era ansiedade. Eu não podia me culpar por algo que sou. 

Quando descobri que aqueles surtos de raiva, de choro e até pânico eram frutos da ansiedade, foi como se mais uma culpa encontrasse lugar entre as outras. A cada crise de ansiedade eu me sentia culpada: você não conseguiu controlá-la de novo, Bárbara. E a culpa, vocês sabem, é cruel. Ela te faz sentir uma pessoa menor, pior, mais fraca e mais má. Eu não me sentia culpada apenas por ser agressiva; eu me sentia culpada por não conseguir impedir isso uma vez que eu já tinha consciência de que aquilo não era eu - aquilo era a minha ansiedade. 

A ansiedade é um fantasma. Um fantasma que aparece pintando de preto e branco tudo aquilo ao seu redor. Em cores muito mais fortes do que o normal resta só o que há de ruim. Ela ressalta o que te incomoda, te entristece, te amedronta. Quando você está ansiosa, você sente que tem todos os problemas do mundo e que eles são graves. Mais que isso, na maioria das vezes, eles não têm solução. Pequenos problemas são vistos com uma lupa de aumento de alta potência. 

Quando você tem consciência de que é a ansiedade falando, ela pode se tornar mais um desses problemas. Um problema que entra no looping sem fim de uma crise: eu sou ansiosa, eu não consigo deixar de ser, eu nunca vou conseguir deixar. Você, de repente, se torna uma péssima filha, namorada, amiga ou profissional - primeiro, porque a ansiedade já ressalta problemas em todos esses papéis e, segundo, porque você sabe que está se comportando de uma maneira que só pode afastar quem ainda está por perto. E tente não ficar mais ansiosa pensando nisso...

Eu sempre penso na ansiedade como uma hélice. Ela não para de girar. Todos os pensamentos vem em alta velocidade, em looping. Um vai se agarrando a outro, como qualquer coisa que se aproxima a uma hélice e é engolida por ela. 

Eu não sei desligar uma hélice. Também não sei desligar a ansiedade. Tento uma ou outra técnica e espero pelo dia seguinte, aquele que vem de mãos dados com o cansaço físico e mental, uma dose de tristeza e outra enorme de... culpa. É o dia em que eu peço desculpas a todos que ousaram não se afastar no momento ruim. É também aquele no qual me pergunto quantas outras vezes eles permanecerão.