quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ansiedade e culpa

Reprodução/Tumblr

A ansiedade nunca está só. Surge sempre de mãos dadas com uma série de sentimentos: raiva, medo, frustração, tristeza. Às vezes ela deixa a gente extremamente agressivo. Em outras, triste que só. Mas o único sentimento que não solta nunca a mão dela é a culpa.

Quando eu era menor, eu me sentia menos culpada. Ainda que a ansiedade frequentemente me fizesse sentir uma pessoa horrível, eu não sabia que era ela a responsável por aquilo. Eu era apenas estressada demais, grossa demais, dramática demais. Eu me sentia, é verdade, culpada por isso - me sinto até hoje. Mas eu não estava com ansiedade; eu era ansiedade. Eu não podia me culpar por algo que sou. 

Quando descobri que aqueles surtos de raiva, de choro e até pânico eram frutos da ansiedade, foi como se mais uma culpa encontrasse lugar entre as outras. A cada crise de ansiedade eu me sentia culpada: você não conseguiu controlá-la de novo, Bárbara. E a culpa, vocês sabem, é cruel. Ela te faz sentir uma pessoa menor, pior, mais fraca e mais má. Eu não me sentia culpada apenas por ser agressiva; eu me sentia culpada por não conseguir impedir isso uma vez que eu já tinha consciência de que aquilo não era eu - aquilo era a minha ansiedade. 

A ansiedade é um fantasma. Um fantasma que aparece pintando de preto e branco tudo aquilo ao seu redor. Em cores muito mais fortes do que o normal resta só o que há de ruim. Ela ressalta o que te incomoda, te entristece, te amedronta. Quando você está ansiosa, você sente que tem todos os problemas do mundo e que eles são graves. Mais que isso, na maioria das vezes, eles não têm solução. Pequenos problemas são vistos com uma lupa de aumento de alta potência. 

Quando você tem consciência de que é a ansiedade falando, ela pode se tornar mais um desses problemas. Um problema que entra no looping sem fim de uma crise: eu sou ansiosa, eu não consigo deixar de ser, eu nunca vou conseguir deixar. Você, de repente, se torna uma péssima filha, namorada, amiga ou profissional - primeiro, porque a ansiedade já ressalta problemas em todos esses papéis e, segundo, porque você sabe que está se comportando de uma maneira que só pode afastar quem ainda está por perto. E tente não ficar mais ansiosa pensando nisso...

Eu sempre penso na ansiedade como uma hélice. Ela não para de girar. Todos os pensamentos vem em alta velocidade, em looping. Um vai se agarrando a outro, como qualquer coisa que se aproxima a uma hélice e é engolida por ela. 

Eu não sei desligar uma hélice. Também não sei desligar a ansiedade. Tento uma ou outra técnica e espero pelo dia seguinte, aquele que vem de mãos dados com o cansaço físico e mental, uma dose de tristeza e outra enorme de... culpa. É o dia em que eu peço desculpas a todos que ousaram não se afastar no momento ruim. É também aquele no qual me pergunto quantas outras vezes eles permanecerão. 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Clareza

Reprodução: TCD/Facebook

Este foi o primeiro ano em muitos que não começou com uma lista de metas para cumprir. Em partes porque, é verdade, faz tempo que eu não sei muito bem o que eu quero. Mas acho que tem aí também um cuidado grande em não prometer - ano após ano - o que só vai frustrar a gente se não conseguirmos cumprir.

A única meta que realmente tracei para 2017 - e para a vida - parece ser bem simples: ser clara. 

Faz semanas que eu penso sobre isso. Sobre como não sou clara comigo e muito menos com os outros. Sobre como fico constantemente calada ou como me comunico muito mal sobre aquilo que eu quero.

E é sobre o que eu quero, não sobre o que eu penso. Porque eu posso passar horas tecendo comentários sem fim enquanto exponho aquilo que eu penso ou acredito. Mas é indescritivelmente difícil me impor quando tenho que falar sobre aquilo que eu quero, espero, desejo. 

Às vezes é por medo de me machucar. Às vezes é por medo de machucar o outro. Mas na maioria das vezes é só por temer incomodar mesmo. Por achar que isso pode causar atritos e, por isso, já tentar evitá-los de antemão. 

Eu já quis terminar um namoro e o arrastei por meses para evitar o sofrimento. Eu já quis mandar um amigo à merda por coisas que ele fez sem talvez sequer se dar conta, mas fiquei calada para evitar a discussão. Eu já quis desesperadamente um beijo, um abraço, um carinho e me mantive em silêncio porque pensei que incomodaria alguém. Eu sempre penso que vou incomodar. 

E eu incomodei. Incomodei porque fiquei com alguém sem ser ou fazê-lo feliz. Porque dor, quando se torna raiva, não passa. Porque amor, se não é demonstrado, não existe para o outro alguém. 

Deixei de dizer um monte de "não" nessa vida. E todos eles, se tivessem sido ditos, teriam me economizado um bocado de tempo e de choro. Agradar os outros custe o que custar custa caro. 

É por isso que minha única meta este ano é ser clara. É deixar claro o que eu penso, o que eu quero o que eu sou. É dizer "não" quando eu tiver vontade de dizer "não". É dizer "quero" quando eu realmente quiser. É dizer "vai à merda" ou "foda-se" quando alguém de verdade merecer. E dizer "eu te amo" sempre que me der na telha. 

Não tem nada mais simples. E, às vezes, nem tão difícil.