quarta-feira, 3 de agosto de 2011

A carta

http://migre.me/j27oP

Mas aqui dentro é tudo tão lindo, tão limpinho, tão cheiroso, tão intocável, que eu acho o maior crime do mundo que a gente deixe que alguém suje, que alguém quebre, que alguém ouse tocar. 

Eu quis cuidar de tudo pra que no jardim as flores nunca secassem. Reguei as plantas, adubei a terra... é uma pena que talvez tenha esquecido de retirar algumas pétalas murchas.  Eu pendurei todos os quadros nas molduras mais bonitas que encontrei. Deixei a sala e os quartos perfumados e arrumados. A cozinha impecável, com bolo assando no forno e geladeira sempre cheia. Desculpe, acho que descuidei do quintal.

Do portão pra fora, me perdoe, mas não cabe mais a mim cuidar. Pensei em colocar uma cerca ou uma grade, algo que nos protegesse do que acontece por lá, mas não consegui. O jardim é florido demais, todos querem ver. A casa é bonita demais, todos a querem ter.

Confesso que semana passada deixei o bolo queimar. Esqueci da hora enquanto falava um pouco a mais na casa da vizinha. Mas se você deixar, eu posso continuar cuidando das flores. Eu gosto mais das vermelhas, e você?

Mas ontem, ontem eu cheguei e o portão estava aberto. As flores tinham sido arrancadas, os quadros estavam no chão e as molduras estavam quebradas. Não havia resquício que indicasse quem fora, mas de tudo, era isso o que menos importava.

Só queria saber onde estava aquela carta que eu te dei. E ela estava lá no mesmo lugar. Quando a encontrei pude então respirar. Havia muito trabalho pra fazer. Uma casa inteira pra arrumar. Só porque ela ainda estava lá.

Não foi a primeira vez, e com certeza não será a última. Mas te prometo que a casa vai sempre estar arrumada quando você chegar. Pelo menos enquanto a carta ali continuar.

Que seja pra sempre.

Um comentário:

  1. Gostei muito! Algo muito pessoal, imagino, mas a forma com que você expôs foi muito bonita (: Parabéns!

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