segunda-feira, 5 de março de 2012

O que restou do mal

http://migre.me/8aPnX


Não precisei viver mais de vinte primaveras pra entender. Não precisei de mais de duas décadas pra me virar contra ele. Vivi séculos em meses, envelheci anos em dias. Cansei.

O ser masoquista e sofredor, que insiste em viver dentro de mim, resolveu se despedir. Foi como se ele olhasse pra mim e dissesse “já acabei meu serviço por aqui, cuide-se bem e adeus”. Eu queria poder dar um soco na cara dele. Derrubá-lo no chão e pisá-lo, mais ou menos como ele fez comigo.

É claro que ele havia acabado o serviço dele por aqui. E aliás, serviço esse muito bem feito, executado com primazia. Ele havia acabado comigo. Me olhou com olhos de pena, como se olhasse para um ser despedaçado. Ele já previa o quão difícil seria eu recompor aqueles pedaços. Saiu pela porta e me deixou ali, no chão, derramada.

Eu estava triste. Eu já não sabia onde colocar as mãos, onde recostar meu tronco machucado, onde pisar sem o medo de afundar mais um pouco. Mas eu não tinha mais pra onde ir.

O bom de quando a gente chega ao fundo do poço, é que de lá, não dá pra afundar mais. Você aterrissa e só te cabem duas opções: permanecer lá eternamente, ou retornar a superfície. Não vai ficar pior do que aquilo, mas pode ficar daquele jeito pra sempre. E provavelmente ficaria se ele não tivesse ido embora. Mas ele havia me dado adeus, e agora eu podia recomeçar a escalada.

Eu não tinha quase forças, é verdade. Mas as poucas que me restavam não eram mais pressionadas por ele. Era como se eu estivesse livre, mas sem forças pra voar. Quase como começar do zero, entende? Quase não. COMEÇAR do zero.

Deus bem sabe que eu odeio começar as coisas. Ainda mais depois de tudo que eu havia sofrido. Eu não era mais a mesma, eu não queria ser a mesma, eu não queria ser ninguém. Eu não queria TER ninguém.

A menininha caiu no poço vestindo flores, e saiu de lá trajando luto. A armadura estava pronta, forte, impenetrável. Mais uma vez alguém rasgara meu vestido, abusara de mim, e me largara ali, vulnerável. E mais uma vez a armadura ressurgia mais forte. Por que diabos eu havia a tirado de novo mesmo?

Eu não precisei viver vinte réveillons pra desejar a distância de tudo que é bonito, meigo, doce. Tudo isso agora dói. Toda a felicidade do mundo agora me esfaqueia aos poucos. Hoje eu quero ter razão, hoje eu não quero ser feliz.

Hoje a garotinha do vestido rodado foi embora. Ele a levou, para sempre. Mas fica uma mais forte, mais firme, mais assertiva. Fico eu, em busca da força, que diferente de todas as outras vezes, não virá de mais ninguém além de mim.

Fica a luta contra a amargura, contra a desesperança, contra o desamor. Amor. Amor. Amor. Esse, pelo menos por um tempo, também me abandonou.

4 comentários:

  1. Você conseguiu atingir a perfeição com esse texto.
    E tenho certeza que logo logo atingirá a superfície, mesmo que ela pareça tão distante!

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  2. Só agora que eu li esse.. Amei, e pode acreditar que a vida assim, "sem amor", não é tão bonita nem tão cor de rosa quanto a que voce está acostumada, mas é muito mais leve. haha te amo metadinha linda

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