quinta-feira, 17 de maio de 2012

Rumo ao sol

Sentei e ela colocou à minha frente, na mesa de vidro, uma tela em branco com tintas e pincéis à sua volta. Me entregou um lápis, e como se fosse a coisa mais simples do mundo, me disse:


- Pode desenhar o que está sentindo e como está se vendo. Fique à vontade.

Ah, claro! Fácil assim. Pegue um lápis e algumas tintas coloridas e diga ao mundo como anda se sentindo sem rumo nos últimos tempos, como anda se percebendo mais fria e racional, e como tudo à sua volta vem te incomodando mais que o necessário. Assim, com alguns traços e umas corzinhas aqui e ali.

Como se não bastasse, ela permanece em silêncio. Si-lên-cio. Ela me joga uma bomba dessas e nem se dá ao trabalho de compartilhar comigo esse momento tenso. Me olhou e sorriu como se incentivasse uma criança a continuar sua tarefa.

A real é que no fim o desenho ficou bonito mesmo, coisa linda de se ver. Um oceano aqui, um sol se pondo acolá e uma porrada de areia com pegadas de uma menina perdida. E quando ela me pediu pra explicar o que tudo aquilo significava, eu quase chorei. Não era só desenhar, me levantar e ir embora, não? Jura mesmo que agora eu tenho que explicar porquê cargas d’água eu desenhei um dia ensolarado na praia?

Eu sabia a resposta. Eu sabia que a menina perdida na praia era eu, tinha até desenhado uma estrada da onde saíam as pegadas que me levavam à areia, à beira mar. 

É porque era mais ou menos isso mesmo. Eu seguia uma estrada asfaltada e segura, e de repente desviei o caminho pra algo que me era quase desconhecido. Não sabia muito bem porque havia desenhado o mar, mas algo me diz que deve ter alguma coisa a ver com aqueles meus sonhos estranhos. 

O que eu gostava mesmo, era do sol. Eu o imaginava num céu azul e quentinho, irradiando aqueles raios laranjas que eu sempre acho lindo quando vejo.

Eu sempre gosto de dias quentes. E no fundo eu sabia que eu ainda tinha um oceano – cheio de ondas gigantes como nos meus pesadelos -, pra chegar ao meu querido e aquecido sol.

Ela me fez umas perguntas estranhas, mas esqueceu de me perguntar o principal. Ela viu a menina sozinha, mas sequer perguntou se ela estava infeliz. Porque o curioso daquele desenho todo, é que ela não estava. É que ela tinha deixado a estrada segura pra trás por escolha própria. É porque ela caminhava para o mar gelado e irado, por escolha própria também. E por mais que eu jamais conseguisse desenhar isso, ela sorria enquanto olhava pro sol.

Não deu tempo de terminar o desenho, e ainda não deu tempo de chegar aos meus queridos raios laranjas. Mas vai dar, eu vou chegar. É tudo questão de tempo.

E eu vou atravessar o oceano... sorrindo, sorrindo, sorrindo. Querendo.

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