segunda-feira, 4 de junho de 2012

Enquanto o farol não abre

http://migre.me/9lSNu

 “Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu me recuso, faço hora, vou na valsa

A vida é tão rara” 
(Lenine)

Pode parecer besteira, mas o momento mais feliz da minha vinda ao trabalho de todos os dias, são os dois minutos que o ônibus passa parado em frente ao parque, esperando o farol abrir. São quase 60 segundos admirando a grama e as árvores verdinhas, o chafariz e as pessoas felizes, e esquecendo do emaranhado de obrigações que ocupam minha mente durante o resto do percurso. É quase como se eu apertasse o ‘pause’ nessa rotina louca de cidade grande e de gente adulta.

Porque a gente arruma tempo pra reunião de última hora, pra entrevista que dura uma tarde, pra coletiva do cliente, pro pedido do jornalista, pro curso que ocupa sua tarde de sábado, pro trabalho da faculdade que é pro dia seguinte e pra todo esse resto de coisas que nos ‘enfiam guela abaixo’. Mas aí eu te pergunto: há quanto tempo você não senta no sofá com sua família pra assistir aqueles programa de fim de domingo? Há quanto tempo você não leva sua mãe pra almoçar? Quanto tempo faz que você quer assistir aquele filme e ler aquele livro, e não consegue?

Sei lá. Essa vida de gente grande me fez aprender a dar valor pra essas pequenas, enormes e importantes coisas. Me fez querer acordar mais cedo no final de semana, não pra trabalhar como no restante dos dias, mas pra ir passear com a minha mãe, comprar coisas inúteis e jogar papo fora, como a gente sempre gostou. Me fez pensar em convidar minha avó pra almoçar fora um dia desses, em vez de engolir correndo a comida que ela prepara com carinho todo dia pra mim. Me fez querer sorrir mais mesmo que eu passe a maioria dos dias com meu mau-humor-de-noites-mal-dormidas.

Acho que é por isso que ando dando tanto valor pra manhãs que despertam ensolaradas, com o céu azul. É que além de me fazerem sentir mais viva, elas sempre deixam a paisagem do parque mais bonita.

E por dois minutinhos eu deixo de pensar nos horários apertados, em tudo que ainda dói aqui dentro - e em como isso precisa urgentemente parar de doer -, e em como tudo isso me deixa cansada às vezes. E me poupo de lembrar de tudo que está pendente na minha agenda e aqui dentro de mim, enquanto percebo, feliz, o quanto os dias podem ser bonitos. Porque podem, e vão ser.

De preferência, não só enquanto eu espero o farol abrir.

Um comentário:

  1. Momentos tão simples e ao mesmo tempo tão importantes.

    Lindo texto e ótimo para reflexão.
    Como sempre, parabéns =D

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