sábado, 22 de setembro de 2012

Cicatrizes

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"É loucura odiar todas as rosas porque uma te espetou."
(O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry) 

Todo mundo tem um trauma. Alguns machucados ainda estão abertos, outros já cicatrizaram, mas sempre há alguma coisa que dói na história de cada um.

O problema é que um trauma é muito mais que uma ferida, sabe? Porque existem aquelas que simplesmente se curam e caem no esquecimento. Mas trauma é algo que te acompanha o resto da vida.

Tem coisas na vida que doem tanto que deixam na gente um eterno medo de sofrer de novo. É como levar uma picada de abelha e odiar pra sempre o pobre inseto. O problema é que tem coisas que doem bem mais e que deixam medos bem mais fortes.

Claro que, por vezes, isso pode ser bom. Há medos que servem de alerta pra gente não cair no mesmo erro de novo. Mas se o “estado de atenção” é grave e constante, também pode fazer a gente perder um zilhão de oportunidades por pura e simples covardia.

Se uma abelha te picou, não significa que todas farão o mesmo. Se um cachorro te mordeu, pode acreditar que nem todos vão te atacar. Se um amor te machucou, não quer dizer que todos os outros vão te ferir. Se alguém traiu sua confiança, não significa que ninguém mais vá ser leal a você.

Um trauma faz a gente adquirir uma série de “pré-conceitos”, como se esquecêssemos que cada qual é um qual, e que as coisas não são iguais para sempre. É como generalizar uma série de coisas e pessoas.

E a gente corre o risco de se fechar para o mundo. De deixar de conhecer novas pessoas, sabores, amores. O risco de nunca experimentar algo novo pelo medo de arriscar mais uma vez. Acabamos virando pessoas incrédulas, inseguras, pessimistas. Gente que não acredita em si mesmo e muito menos nos outros. E pra quê?

Quebrar a cara faz parte da vida e você nunca vai poder controlar o mundo a sua volta. Você é responsável por você e pelos seus atos, agora sobre o dos outros – por mais desesperador que pareça – só nos resta confiar. Pode ser que seja uma cilada, sim. Pode ser que você se machuque de novo. Mas você também pode ser surpreendida para o bem. Vai perder essa oportunidade?

A gente sabe que depois de um tombo muito feio é preciso um tempo pra se recuperar. E a gente sabe que mesmo quando a ferida é cicatrizada, muitas vezes ela não nos deixa esquecê-la e continua dolorida. Mas e aquela cicatriz que você ganhou quando conseguiu andar de bicicleta sem as mãos pela primeira vez? E aquela que surgiu quando você levou aquele tombo – bêbada – na sua formatura? Você se arrepende por elas? Preferia não tê-las?

O mesmo serve pra vida. Cicatrizes não surgem por acaso, mas pra te lembrar algo, seja uma boa lembrança ou um alerta. O importante é não deixar de tê-las, porque se poupar é muita covardia perto da infinidade de vida que há pra se viver lá fora.

Confiar nos outros, afinal, talvez ainda seja a melhor solução. Deixe que o mundo te surpreenda.

4 comentários:

  1. Mais um texto incrivelmente bonito, dizendo o que todo mundo já sabe, mas sempre precisa ouvir.
    E esse aqui realmente veio a calhar pra mim, Bá. Obrigada e nunca abandone seu blog lindo, sempre tem alguém precisando ouvir até o que já foi dito.

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    1. Mari, seus comentários são sempre os mais lindos!
      Escrever é bom quando ajuda a gente, mas é mais ainda quando ajuda os outros, sabe?
      Pode deixar que não abandono o blog, e você, por favor, continue visitando sempre!
      Muito obrigada :}

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  2. Tem gente - como eu - que tem o hábito de ficar marcando velhas cicatrizes, achando que elas vão nos lembrar dos erros e nos afastar da realidade para sempre, mesmo sabendo que não vão. E aí, como vc disse, é que corremos o risco de nos fechar para mundo...
    Lindo texto, Bá, realmente veio a calhar.

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    1. Acho que a maioria de nós partilha do mesmo hábito, Má. E é aí que mora o perigo. Mas a vida pode ser bela demais, e como a gente a vive só uma vez, melhor não deixá-la passar despercebida com medo do pior. Obrigada, linda! =')

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