quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O último romance

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Pegou a chave do carro e chamou o elevador. Não estava com pressa, mas as paredes de seu apartamento começavam a sufocá-la.

Tudo lembrava ele.

Ainda cedo, na cama, abriu os olhos e viu o travesseiro que era dele. Respirou fundo e virou para o outro lado, ainda sentindo falta do abraço que costumava acompanhá-la nesse movimento. Levantou.

Caminhou até o banheiro. Abriu o armário em cima da pia e – droga! – ele havia esquecido a loção pós-barba. Não precisou abrir o frasco pra sentir o perfume. Instantaneamente se sentiu enjoada e sentou novamente na cama.

Ela precisava começar o dia, mas não fazia ideia de como fazer isso. Sentia uma vontade imensa de se enrolar nos lençóis novamente, mas o branco deles fazia-a a lembrar de um sorriso que não lhe pertencia mais.

Há dias ela queria privar-se dos seus próprios sentidos. Era torturante demais poder enxergar, ouvir e sentir um mundo inteiro sem ele. Ela desejava o vazio.

Sentiu fome e foi até a cozinha. Foram quase dez minutos para abrir a geladeira. Ela sabia que ia ter que encarar as compras que ele fizera na semana passada. Agora diz, como alguém faz compras e simplesmente vai embora? Como alguém faz planos e apenas os abandona?

Tomou café correndo. Passava a maioria dos dias assim: ansiosa para que eles terminassem logo. Precisava trocar de roupa, mas não estava nem um pouco animada para abrir o guarda-roupas. Ele não havia esquecido nada, mas aquele espaço vazio a atormentava.

Fazia calor e era quase uma afronta que o sol teimasse em sair em dias como aqueles. Olhou pela janela e viu pessoas na calçada. Pessoas, vivendo. Como? Como é que o mundo não havia parado depois daquela noite?

Em um dia normal escolheria um vestido, mas isso parecia algo muito feliz para quem trajava luto. Ficou com o jeans. Colocou qualquer blusinha e reparou que precisava comprar roupas novas: todas as do armário a faziam lembrar dele. Tinha a que ela vestiu no aniversário de namoro, a que ele trouxe de presente da viagem internacional... Será que ela podia rasgar todas elas agora?

Não ousou espirrar nos punhos e no pescoço o perfume que ele havia lhe dado. Sentia náuseas com todo cheiro que a lembrava dele. Não lembrava mais como era ter um estômago saudável.

Não colocou maquiagem, embora precisasse, já que as olheiras profundas e escuras saltavam em seus olhos. Mas não precisava. Ninguém ia reparar.

Pegou a bolsa no sofá e passou pela sala evitando olhar os porta-retratos da estante. Queria poder se desfazer de todos aqueles móveis, daquele apartamento, daquelas lembranças. Não estava na hora ainda, mas mesmo assim resolveu sair.

Pegou a chave do carro e chamou o elevador.

Teria quase esquecido o celular, se não tivesse o ouvido tocar, esquecido em cima do braço do sofá vermelho.

Ao pegá-lo, a surpresa. Era ele. 

Sorte ter acordado cedo e não estar com pressa, porque naquele momento era certo: ela iria se atrasar. 

 (Continua. Ou não)

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