segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mentir por amor

“Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
(Camões)

Ninguém mente por amor - das poucas e raras verdades absolutas que existem nesse mundo, tenho certeza que essa é uma delas. 

Sempre achei um absurdo sem tamanho usar um sentimento tão nobre e bonito para justificar atitudes mesquinhas e tolas. Acho mesmo que confundir egoísmo com amor deveria ser ato criminoso, porque simplesmente não existe sentimento verdadeiro que se construa baseado em falsidade.

 É que não há no mundo amor que resista à falta de confiança. E confiança é um sentimento muito mais difícil de ser cultivado do que amor. Amar a gente ama várias vezes, várias pessoas, de vários modos. Ao fim de um amor a gente sobrevive, dá um jeito, se reinventa. Amor se reconquista e se reconstrói, sim. Mas confiança? Não, acho que não.

É a velha história do copo de vidro. Você pode quebrá-lo, e mesmo que peça desculpas, ele nunca vai voltar a ser como antes. Uma mentira, e todas as outras verdades soarão como falsas também.

Toda mentira é egoísta. Tem gente que mente porque se for descoberto, vai ter que arcar com as consequências. Tem gente que mente porque sabe que não vai aguentar o sofrimento que a verdade pode causar. Mas a verdade é que eu não conheço ninguém que minta pra poupar alguém. A gente mente é pra SE poupar. Pra se poupar da dor, do sofrimento, do fim. Pra enganar o destino, pra escapar das nossas próprias atitudes, pra não pagar o preço. Puro egoísmo. Co-var-di-a.

Não tô dizendo que eu não minto, não. Quem não mente? Mas quantos bancam sua mentira? Quantos assumem as consequências dela? Quantos revelam pra si mesmo o real motivo de enganar alguém em benefício de si próprio?

Para mentir tem que ter peito. Para amar também.  

Só “mente por amor” quem não sabe amar. Porque quem ama mesmo, com alma e coração, sabe que o amor verdadeiro é capaz de resistir às verdades mais duras, mas não consegue tolerar o desrespeito que é enganar quem se ama. 

Esse é o tipo de crime para o qual não há anistia. Apenas sentença.

3 comentários:

  1. É meio que todos sabem ao certo sobre o amor, a mentira , o ódio.
    Desculpa esta visão de amor para a vida toda , acredito sim mas acho raro isso acontecer em uma só vida.
    Acredito que uma mentira dói porem desacredito que as verdades se tornaram mentiras após um desastre no contexto de veracidade. Acho que em um namoro vão ocorrer diversas coisas entre elas a mentira, e que seja ela descoberta ou não, não terá uma capacidade de terminar algo que venha acontecendo e amadurecendo com o tempo.
    Entenda não estou defendendo este ato horrível que todos cometem, mas estou simplificando as coisas, digamos que para um bem emocional certas coisas não deve atribuir tanta importância. Se mentiu, terá suas consequências é claro , mas não se deve remoer em hipótese alguma algo pesado, ruim, asqueroso como é a mentira.
    Contudo devemos saber lidar com essas situações “mentirosas”, pois em qualquer relacionamento elas ocorrem seja na amizade, no amor, na variância do amor entre outros tipos. Ela esta lá pronta para ser descoberta, ou não. Mas oque importa é o desapego dessa condição moral, se ela machuca e corrói a alma não há outro remédio ao não ser se afastar de pessoas que adoram utiliza-la, que adoram faze-la enganar e se contradizer. Simplesmente isto não vale a pena tendo em vista tantos outros aspectos humanos.


    Barbara parabens pelo texto, esta ótimo.

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  2. É a velha história do copo de vidro, se quebrá-lo, peça desculpas pelo incidente e compre outro copo para substituir o antigo. Aproveite e compre um mais bonito e maior, que atenda as suas necessidades.
    O copo, é apenas um copo.
    Não acredito que toda mentira seja egoísta. Mente-se muitas vezes para poupar alguém que se ama. O desafio é, que após a verdade ser revelada e o mentiroso mostrar o seu arrependimento, existirá amor suficiente para superar, esquecer, perdoar e continuar a viver esse relacionamento? Só quem foi traído poderá responder.
    Afinal, o perdão não é a virtude de todos.
    E não é fácil bancar uma mentira, tem que ser frio, sofrer calado, aguentar o medo de ser delatado todos os dias. É agonizante. É como ser o super homem e ter que carregar a criptonia na mochila.
    Concordo com a questão da sentença, mas após cumprir a pena, será que o mentiroso não merecerá o seu perdão?

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  3. Acredito que tem certas coisas que simplesmente não precisam ser ditas. Acho que em algumas vezes, poupar uma pessoa de uma verdade dolorida e desnecessária é também uma forma de carinho.

    Claro que omissão é diferente da mentira, mas se ainda assim essa pessoa preferir te poupar da verdade (mesmo deturpando-a), será que ela é tão cruel assim? E será que todo mundo que ama - e ama mesmo - aguenta o peso da honestidade? Essa coisa de "quem ama de verdade aguenta tudo menos ser enganado"... Eu não consigo enxergar isso de forma generalizada. Quem não garante que a enganada também não seja culpada pela mentira? Talvez por ter levado a pessoa que a ama mentir por intolerância a algo que para a pessoa enganada é inadmissível, mas para o(a) seu(sua) companheiro(a) é aceitável...

    Sei lá. Eu entendo a sua posição sobre isso, de não tolerar esse tipo de traição. E eu sei bem que uma mentira suja todas as verdades já ditas. Mas eu acredito também na mentira como uma forma de demonstrar principalmente de que um relacionamento não é tão repleto de compreensão como "deveria". Ora, "quem ama de verdade não tem de aceitar seu amor por inteiro", também?

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