sábado, 22 de dezembro de 2012

O Último Romance - Parte II

menina deitada
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Olhou para o celular por três segundos, mas foi tempo o suficiente para ficar com medo de que ele desistisse da ligação. Atendeu e não soube contar quanto tempo o silêncio pairou até que ele iniciasse a conversa com o velho conhecido “oi...”. 

Teve raiva. Dias sofrendo e tudo que ele diz é “oi”? Cadê a emoção, o sofrimento e as lágrimas na voz dele? Será que os olhos dele estavam inchados como os dela? Será que ele também chorou no filme que passou ontem na televisão, enquanto a música deles tocava?

Ficou muda porque não queria estragar tudo. E esse era o grande problema: ela sempre ficava muda pra não estragar as coisas. Não adquirira gastrite nervosa de graça.

Ele não perguntou se estava tudo bem e ela deu graças à Deus por isso. Sentou-se no sofá e esperou ele continuar o assunto. Meio que sem graça e sem saber o que dizer, convidou-a para almoçar.

- Não posso. Estou de plantão hoje. – respondeu, fugindo de qualquer encontro que a fizesse regredir ao estado vegetativo que se encontrava dias atrás.

- Ouça, Clara, não é nada demais. Na verdade, só precisamos mesmo acertas algumas coisas. Precisamos decidir com quem fica o apartamento, a mobília... Inclusive, eu esqueci uma loção pós-barba aí, não esqueci? – perguntou.

Claro que ele estava em dúvida. Vai ver, não tinha certeza se tinha deixado na casa de outra. Era mesmo um desavergonhado! O apartamento e a mobília? Que ficasse com ele! A loção? Ela trataria mesmo de dar descarga nela.

- Rodrigo, eu realmente não posso. Mas pra simplificar as coisas, me dê umas duas semanas e eu saio do apartamento levando apenas o que é meu, ok? Não se preocupe.

Não era isso que ele queria. Esperava que ela chorasse, dissesse que não era assim, pedisse pra ele voltar. Afinal, esse é o tipo de coisa que homens sempre esperam das mulheres frágeis e dependentes, como nós ela.

Não era por falta de vontade, e muito menos por falta de amor. Olhava cada pedaço do apartamento e desejava ardentemente vê-lo ali de novo, e pensou diversas vezes em implorar pelo seu retorno. Mas não era a solução.

Enquanto ele insistia em um almoço, e sugeria até mesmo um jantar, Clara fechou os olhos, se recostou no sofá e ficou aproveitando sua voz. Era macia. Lembrou das gravações em seu celular e de quantas vezes as ouviu repetidamente, em busca de algo que aliviasse a saudade. Tudo se resumia em dor.

Queria urgentemente aceitar seu pedido para almoçar, jantar, dançar, dormir, casar de novo... Mas até quando eles seriam felizes novamente? Quão mais ela confiaria nele?

Continuou com os olhos fechados e adormeceu. Rodrigo desligou o telefone nervoso, sem entender absolutamente nada, enquanto Clara sonhava o mesmo sonho de sempre: as ondas. A diferença? Agora ela estava sozinha.

* Dê uma olhada na primeira parte do conto O Último Romance.

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