segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A fragilidade da vida

luto santa maria

Não moro e não conheço ninguém que more em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Nenhum daqueles jovens que estavam na boate no sábado era meu amigo, e eu sequer sei o nome completo de alguma das 232 vítimas fatais do incêndio.

Mas eu já perdi um amigo. Eu já perdi um familiar. E quando a gente vê as lágrimas dos que ficaram por aqui, vendo os que amam partir, é impossível não sentir um pouquinho da dor deles. E eu digo “um pouquinho”, porque a dor de perder quem se ama é infinita.

Eu também já me arrependi por não ter dado um último tchau; por não ter aproveitado melhor os momentos que a gente passa com quem a gente gosta. Já quis voltar no tempo e dizer um “eu te amo”, já blasfemei contra Deus e o mundo por ter tirado daqui de baixo alguém tão bom e inocente. Eu já gritei “por quê?” aos prantos, e já me arrependi por cada briga ou resposta atravessada. Eu já sentei num banquinho de jardim e pensei “será que você sabia o quanto eu te amava e ainda amo?”.

Eu já ouvi uma música que me lembra alguém e comecei a chorar. Eu já vi fotos antigas que me fizeram querer morrer também. Já revisitei lugares que eu pensei que jamais conseguisse visitar de novo. Já deitei na cama desejando que fosse tudo um pesadelo e já escrevi mil textos tentando explicar tudo isso que é a... Saudade.

Porque saudade de quem tá perto dói de um jeito que é até bonito. Saudade de quem tá aqui pertinho, soa quase como uma ansiedade de reencontrar quem a gente SABE que vai reencontrar. E aí o sofrimento é mais fácil, mais leve, não é?

O duro é sofrer com uma saudade que você não sabe se vai conseguir matar. É não ter um calendário pra riscar os dias que faltam para o reencontro, e não ter ao que se apegar pra ansiar por ele. Sorte dos que sentem apenas saudades terrenas!

Tragédias como a de Santa Maria serão sempre inexplicáveis. Mas para quem está de fora, ileso, apenas assistindo tanta tristeza, resta o inevitável: humanização. Humanização para amar o próximo mesmo sem saber seu nome, para enxergar vidas no que a imprensa chama de números, e – principalmente – para dar valor à nossa vida e à de quem amamos.

As pessoas que mais amamos, muitas vezes são aquelas para quem menos demonstramos isso. Hoje eu saí de casa e disse “eu te amo” para minha mãe e para minha vó. Brinquei um pouco com minha cachorra e prestei mais atenção nas ruas. Não sei se daqui a alguns meses, quando essa tragédia toda for só lembrança, eu ainda farei a mesma coisa.

Fica a tarefa, e muito mais do que isso, a lição. Lição essa, que Nando Reis canta tão bem em uma das minhas músicas favoritas:

“Que a vida é mesmo coisa muito frágil, uma bobagem, uma irrelevância, diante da eternidade do amor de quem se ama.”
(Por Onde Andei? - Nando Reis) 

3 comentários:

  1. Letícia Strafacci30 de janeiro de 2013 17:43

    Chorei também :'(

    Muito bonito o texto Bah, parabéns. Mesmo o assunto sendo triste, você mostra o seu talento.

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  2. Obrigada, Lê!

    Meninas, é difícil mesmo não se comover com toda essa tragédia. Que aprendamos algo com isso, né?

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