segunda-feira, 22 de abril de 2013

Sobre jogos de sedução


"Se eu queria enlouquecer, esse é o romance ideal."
(Paralamas do Sucesso - Romance Ideal)

Passou por mim no tempo exato. Não tão devagar a ponto de me fazer achar seu olhar desrespeitoso, e nem tão rápido que me fizesse não conseguir pousar meus olhos no dele. O sorriso foi discreto, meio torto, nada inocente. Sei que naquele momento minhas sobrancelhas se franziram em alerta, mas também em convite. Ainda assim, foi embora sem olhar pra trás.

Era a terceira vez que nos encontrávamos no mesmo lugar. Ali, em frente ao prédio comercial do outro lado da rua. Pelo cheiro de nicotina, posso apostar que ele havia descido para fumar mais um cigarro. Eu, como sempre, apenas esperava uma amiga para a aula de francês.

Ele nunca me pareceu pensar em esboçar uma palavra. Eu, da mesma maneira, ficava calada. Não sabia seu nome, seu endereço e sequer sua profissão. Mas ao longo dos dias pude reparar que a camisa cinza lhe caia muito bem, e que ele tinha uma suave obsessão por óculos escuros. Era tudo que eu sabia sobre aqueles olhos castanhos.

Passaram-se semanas e nada mudou. Ele ali, no mesmo lugar, com o mesmo olhar inquietante, de quem queria me despir enquanto fala de amor. Em um desses dias eu quase ouvi sua voz, mas era só minha imaginação tentando desvendar um suspiro mais profundo. Era o jogo de sedução mais delicioso que já havia vivido.

Certo dia, descobri que meu olfato não havia falhado. Encontrei-o fumando na portaria do edifício. Parecia nervoso, mas não deixou de me olhar. Um olhar de súplica, socorro e desespero. Parecia desejar ardentemente que eu saísse dali e nunca mais voltasse. Passou os olhos sobre o meu corpo inteiro e como se não soubesse se conseguiria resistir a pular em cima de mim ali mesmo, saiu de perto num ímpeto nervoso.

Nunca mais o vi.

Foram-se mais dois meses esperando minha amiga no mesmo local, e parecia mais fácil ficar fluente na língua francesa do que encontrá-lo novamente. Um dia tomei coragem e perguntei ao porteiro sobre o homem de camisa cinza e óculos escuro, que descia todo dia naquele horário para fumar um cigarro.

Ele riu. Ora, então eu não sabia? Ele havia se casado e mudado de cidade. Pediu transferência para a outra capital logo após a volta da lua-de-mel. Engoli seco e agradeci a informação.

Quando estava de saída, o porteiro me chamou: “Ei, moça, ele pediu pra eu entregar um bilhete pra uma moça que deveria vir lhe procurar. Creio que seja você!”.

Ia dizer que provavelmente não era de mim que ele falava, mas resolvi pegar o pedaço de papel mesmo assim. Com uma letra tremida, li o seguinte recado:


“Me apaixonei por ti. Você tem os olhos mais bonitos que já vi, e o corpo mais delicioso que já quis provar, mas há alguém com o qual eu não posso falhar. Desculpe.
Ps: Espero que esteja de cabelos presos. Você fica linda assim."

Ri de nervoso, guardei o bilhete no bolso e saí caminhando em direção ao metrô. Desfiz a trança e soltei mecha por mecha do meu cabelo. Percebi que o preferia solto. Me olhei no espelho, peguei minha agenda e escrevi algo para nunca mais esquecer: “Pode ser que um dia você encontre alguém que goste de você e ponto. Mas o essencial é encontrar alguém que goste de você O SUFICIENTE.”

O suficiente pra largar o mundo por ti? Não é preciso tanto. Mas, principalmente, o suficiente para desejar não falhar com você.

No jogo da sedução, só se dá bem quem entende que covardia, meus caros, é bem démodé.

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