segunda-feira, 3 de junho de 2013

A tempestade


 "Será que eu sou capaz
De enfrentar o teu amor
Que me traz insegurança
E verdade demais?"
(Legião Urbana – A Tempestade)

Éramos nós dois na chuva. O vento gelava a espinha e arrepiava até o último fio de cabelo. Se saíssem de lá apenas com um resfriado, estariam no lucro. As gotas caíam pesadas como se quisessem os expulsar do meio da rua, do descampado, do desprotegido. Mas ambos precisavam de mais, e não pretendiam parar tão cedo.

Ainda que vissem pessoas correndo para dentro de suas casas, morrendo de frio, eles permaneciam ali, parados e quentes. Afinal, a raiva aquece. E ela paralisa também. A tempestade era só o cenário ao fundo. O espetáculo estava longe de acabar.

O barulho dos trovões escondiam os gritos. Devia ser estratégico, porque não sairiam ilesos se conseguissem ouvir os absurdos que gritava um para o outro. Despejavam, assim como o céu, tudo que guardavam há semanas e meses. Transbordavam mágoas e elas escorriam para os bueiros, assim como a chuva. Sequer sentiam suas lágrimas, que se misturavam com a água que caía do céu.

Não perceberam quando o céu começou a desanuviar. A tempestade diminuía, e o silêncio entre eles aumentava. Parece que não havia mais nada a falar. Aos poucos, sentiram o frio. A chuva deixou de cair e o corpo pedia por calor. Era humanamente impossível permanecer encharcado na rua, diante daquele inverno.

Ela quis pegar o molho de chaves do bolso, mas o deixou cair. Ele riu e não percebeu que ela havia voltado a chorar enquanto se abaixava para recuperá-lo. Ela estava cansada das tempestades. Era inverno o ano todo, há tanto tempo. A tempestade dessa tarde parecia ter vindo para selar o final e o início de outra estação.

Abriu o portão de casa e não quis olhar pra trás. Abrigou-se ali no quintal mesmo, onde ainda podia olhar para ele. Fazia frio, e ele morava longe, mas ela não queria mais abrir a porta de sua casa para ele. Não dessa vez.

Ele aproximou-se do portão e estendeu a mão por entre os vãos das grades. Ela balançou a cabeça negativamente. Tremia e não conseguia falar, mas ele sabia que dessa vez dificilmente teria volta.

Ela leu nos lábios dele o adeus. Deixou a última lágrima cair e o viu partir, assim como o inverno. Sentiu saudades dos verões e primaveras que haviam passado juntos, onde tudo parecia tão terno.

As estações são traiçoeiras. É fácil se sentir aquecida pelo amor quando o Sol está sempre nos envolvendo. O difícil é permanecer quente durante o inverno. Só será amor de verdade se ele suportar as tempestades, afinal.

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