sexta-feira, 7 de junho de 2013

De passagem

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 “Não era amor, era de tarde.
Não era amor, era inverno.
Não era amor, era sem medo.
Não era amor, era melhor.”
(Martha Medeiros)

Acho que tudo começou no aeroporto. Foi quando eu vi você tirando as malas do carro. Despediu-se do homem que te acompanhava e passou por mim no saguão de entrada.

Alguém comentou algo comigo logo depois disso, mas eu já não conseguia ouvir. Tinha algo chacoalhando aqui dentro, brigando de me fazer cócegas e de formigar grande parte do meu corpo. Não, não era amor à primeira vista. Era intuição.

Sentou-se na fileira de assentos ao lado da minha, e se eu pendesse meu corpo um pouco mais para frente, conseguia te ver. Por precaução, sentei ao lado da janela e tentei, de todas as maneiras, não te olhar.

Seria bem sucedida, não fosse a vez que senti seus olhos pregados em mim. Ri de nervoso quase a viagem toda, embora isso se resumisse em menos de duas horas – que me pareceram duas vidas.

Ouvia pedaços cortados de suas conversas. Nem eu, nem você viajávamos sozinhos. Fazia esforço pra não identificar qual voz seria a sua. Podia não te conhecer, mas sabia que só você me faria desejar um pouso forçado numa ilha deserta.

Tentei dormir, mas a ansiedade não deixou. Tentei cantar, mas tinha esquecido todas as letras de música. Pensei em conversar com alguém, mas também não queria que ouvisse minha voz.

Estávamos numa encruzilhada, afinal. Aquele momento em que você tenta desesperadamente fugir de um destino que deseja, e que sabe que é inevitável. Talvez tenha sido o olhar, o perfume, e até o modo de andar, mas algo havia avisado: não vai dar para fugir.

Não deu.

Meses depois, quando já estávamos separados, alguns me disseram que “aquilo” foi paixão. Outros insinuaram que era só uma diversão em meio ao meu repúdio à rotina. Teve quem dissesse que era amor, mas esses foram poucos.

Eu não sei o que foi. Talvez tenha sido melhor do que todas essas coisas. O fim foi devastador, mas não mais que o começo. Foi um sonho bom que deixou as coisas desarrumadas assim que eu abri os olhos.

Se me perguntassem hoje, eu ainda entraria no avião, mas jamais desejaria a temporada numa ilha deserta. Foi bom porque chegou logo ao fim. E foi melhor ainda porque não acontecerá nunca mais. De qualquer maneira, foi inesquecível.

Não lembro o número do voo, mas sei que o destino era a liberdade. Obrigada por ter vindo e ido embora, exatamente como os aviões costumam fazer. Eu fui sua pista de voo, afinal. 

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