sábado, 26 de outubro de 2013

Ser livre é ser vadia?

http://migre.me/gpUx1

Fran é uma garota que fez sexo. Fez sexo e se deixou ser filmada. Foi filmada e, sem saber, foi parar na internet. Fran era uma garota feliz. Hoje, ela não sai mais de casa, nem para estudar ou trabalhar. Recebeu propostas de prostituição e milhares de ofensas, dessas que vão de "puta" para baixo. Fran fez sexo. Você não faz?

Estávamos no carro relembrando histórias e pessoas antigas. Foi quando surgiu o nome de uma garota que há anos havia aparecido em fotos nuas na internet. Ela tinha enviado as imagens para o namorado e elas acabaram caído na rede.

Conheço mais de uma ou duas meninas que passar pela mesma coisa. Uma, inclusive, estava inconsciente quando tiravam fotos dela em situações constrangedoras – e arquitetadas pelos infelizes fotógrafos.

Em ambos os casos, as meninas ficaram marcadas para sempre. Ambas foram taxadas como “vagabundas”, “meninas que não se dão ao respeito” e etc. Tínhamos uns 15 anos na época, e talvez por isso, muitos dos nossos amigos ainda se baseavam em mentalidades machistas.

Hoje uma delas é mãe. Ainda assim, quando lembramos dela aquela tarde no carro, foi por esse episódio. Foi quando uma amiga questionou “mas também, qual a necessidade de se deixar ser filmada e fotografada?”.

Não sei. Assim como não sei qual a necessidade de milhares de coisas que fazem homens e mulheres sexualmente felizes. O meu tesão não é igual ao seu. O que me excita pode não te excitar, mas e daí?

Sexo não precisa ser feito por amor. Filmes e fotos também não. Se eu transar com um cara por prazer e deixar ele filmar porque isso me excita eu estou fazendo algo de errado?

O problema é que as pessoas não entendem que o sexo entre um casal – ou entre quantas pessoas quiserem – não é feito só para uma pessoa. Não é só o homem que merece ter prazer e que deve ter todas as suas vontades realizadas, selam elas qual forem.

Esses dias, no caminho do metrô, um grupo de meninos falava sobre uma menina. Enquanto discutiam o quanto ela era “gostosa”, um dos meninos disse: “Mas tem que vir de quatro. Menina que não vem de quatro já perde ponto.”

Então, deixa eu entender: se eu transar de quatro com um cara sem estar afim, só porque ele quer, eu estou sendo uma boa garota; mas se eu quiser deixar um cara me filmar ou fotografar eu estou sendo uma vagabunda? E se eu confiar que isso ficará só entre a gente, eu sou burra?

Eu preciso “me dar ao respeito”, mas quando é que eu estou abrindo mão dele: quando eu ignoro minha vontade para satisfazer a do outro, ou quando eu faço o que bem entender com o MEU corpo e o MEU prazer?

É que mulher pode fazer sexo, mas não pode mostrar que gosta. A sociedade ainda vê o prazer feminino como segundo plano: o importante é estar ali, pronta, gostando ou não. Se gostar, legal, mas melhor não gritar aos quatro cantos, né? É “vulgar”. Mulher que gosta de sexo – e fala disso – é vista como “dada demais”.

Tive um namorado que não gostava que eu falasse de sexo com minhas amigas. Nunca entendi o motivo. Na cama eu tinha que ser atriz pornô, mas o filme só podia passar pra ele. É como se o resto do mundo não pudesse saber que eu fazia sexo.

Se eu canto funk gritando que “a porra da buceta é minha”, eu perco minha “reputação”. Mas acontece que ela é minha, catzo! Assim como todas as partes do meu corpo, com as quais eu faço o que quiser.

O que acontece, na maioria das vezes, é que filmagens ou fotos são feitas para ficarem entre as partes envolvidas, assim como a intimidade de um casal. O que é quebrado quando uma coisa dessas cai na internet é a confiança e o acordo implícito – ou às vezes explícito – que existe entre duas pessoas.

Erra quem se aproveita de um momento desses para expor alguém de forma pejorativa. Erra quem julga uma menina que aparece em um vídeo fazendo o que a gente faz toda noite com nossos parceiros e parceiras. Erra quem acha que mulher não pode gozar, gemer, e fazer o que quiser na cama.

Chega de prazer reprimido. Chega de gemer baixinho, de gozar discretamente, de esconder o que dá prazer. Ninguém precisa ter vergonha disso. Vergonha precisa ter quem acha que isso diz algo sobre o caráter de alguém.

Vergonha é pra quem mente, quem rouba, quem engana, ludibria. Coisas erradas que a gente faz todo dia  - muito mais do que sexo, infelizmente. Fazer sexo não agride ou faz mal para ninguém.

Enquanto a sociedade continuar mergulhada no machismo cego, infelizmente teremos mulheres mais infelizes e menos realizadas. Se ser vadia é ser livre, graças a Deus eu também sou!

6 comentários:

  1. Essas mesmas pessoas que chamam mulheres de vadias ou sei lá o quê por "se deixarem ser filmadas e fotografadas" devem se esquecer que suas próprias mães muito provavelmente devem ter feito as mesmas coisas que a "vadia do vídeo" fez com seus próprios pais - ou até com outros caras antes deles.

    Povinho idiota. Tsc tsc...

    Ótimo texto, Bá!

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    1. Exato, Tami! Obrigada!
      O engraçado é que o prazer da mulher sempre tem que ser secreto. Quando é exposto, vira "coisa de vadia".
      Mais sexo e menos machismo, por favor!

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  2. Não tenho nem o que acrescentar, apenas agradecer pelo texto em uma internet tão poluída. O mundo ainda tem jeito. Obrigado.

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    1. Obrigada você, Allan! Que as pessoas se conscientizem logo! ;')

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  3. Bá, nunca tinha lido esse texto seu achei um máximo, mas é sempre assim,.. se a mulher está solteira e quer conhecer outras pessoas ela é vadia, mas se um homem esta solteiro e pega várias ele é o pegador e gostosão.
    Cada um tem que fazer o que faz bem pra si, e o que quer pra vida dele mesmo.É mais gostoso ainda ver que por exemplos homens como o ''Allan Simon'' aí em cima também concorda com tudo isso.

    Parabéns Bá, seus textos estão cada dia melhores!! Beijos Isa

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    1. Obrigada, Isa!
      Pois é, nós vivemos muito isso, né? Somos julgadas diariamente por fazermos o que queremos. Meu corpo, minha escolha!
      Vamos continuar comprando essa briga :)

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