quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Let it go

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O gosto era forte. Salgado e ácido. Uma bomba no estômago. Talvez pudesse ser mais suave, mas é que aquela já era a quarta. Mais uma dose de tequila e ela não chegaria sã e salva em casa.

Na verdade, mais salva do que sã. Todas as doses visavam exatamente a perda de qualquer sanidade. Raciocinar ou sentir causavam mais dor do que a ressaca do dia seguinte.

Foi para pista. Não identificava a música, mas dançava. Queria estar sozinha para aproveitar o espaço. Precisava dançar para extravasar o que não podia gritar.

Na verdade, ela não grita. Odeia gritos. Se soubesse gritar, talvez as quatro doses de álcool fossem desnecessárias.

Buscou o celular e teve raiva de si. Ele não ligaria. Esquecê-la era tarefa fácil, não pedia sequer um gole de vodka. Era ela quem precisava se esforçar brutalmente para apaga-lo da memória.

Dispensou todos os caras que chegaram perto dela. Foi rude com aquele que pegou em seus cabelos. Se desvencilhou do que pegou-a para dançar.

Ela não gosta de dançar a dois. Ela odeia pensar em qualquer coisa a dois. Essa noite ela é só dela. Ela sempre deveria ter sido só dela. Ela não suporta lembrar que um dia não foi.

Sabia que estava prestes a amanhecer, mas já não se importava. Talvez perdesse o trabalho, a faculdade, a reunião. Foda-se. Ela o havia perdido. Pior. Ela havia descoberto que nunca o teve.

Pensou na quinta dose, mas sentiu o estômago revirar. Foi ao banheiro e colocou para fora tudo que lhe fazia mal. E não era só tequila. Era ódio, tristeza, indignação e um pouco de pânico também.

Queria poder jogar o mundo na privada e dar descarga. A merda é que ela não podia.

Bateram na porta uma, duas, três vezes. Ela só abriu quando ameaçaram chamar a ambulância. Respondeu mal educadamente que não precisava de médico. “Preciso de vodka”, gritou.

Esbarrou com uma gringa ao sair. Cabelos louros, bochechas vermelhas, já parecia um pouco alta também. A gringa lhe olhou e disse “let it go”.

Let it go. Let him go. Let it go.

Repetiu mentalmente essas frases um milhão de vezes enquanto esperava um táxi sentada no meio fio da calçada.

Sentou no banco de trás e, ninguém sabe como, passou o endereço de casa ao motorista. Jogou o celular pela janela durante o caminho. Pediu para o cara parar uma ou duas vezes, para colocar para fora um pouco mais do que lhe fazia mal.

Chegou em casa, deitou na cama, adormeceu. Ao acordar comprou uma passagem só de ida para um país que sequer falava uma língua que ela soubesse.

Para os pais, deixou uma carta com o número novo de celular e a nova conta do Skype. No caminho ao aeroporto, pediu para que o taxista parasse. Quando voltou ao carro, exibia uma nova tatuagem.

Era na costela, perto do coração. “Let it go”.

E foi embora. 

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