segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Uma carta


"A saudade é de fato
A dor mais triste desse mundo,
Dói no coração pacato,

No coração vagabundo."
(Marcelo D2 - Dor de Verdade)

Quando eu era pequena, eu morava em uma casa na rua da feira. Toda quinta, logo na madrugada, começávamos a ouvir o barulho dos feirantes montando suas barracas. Era a desculpa ideal para eu dormir na sua casa.

Ela era pequenininha, nos fundos de uma casa bem maior. Tinha aquela escadaria enorme, onde eu passava as tardes brincando de escolinha e na qual eu levei o único tombo que me deixou uma cicatriz.

Toda quarta-feira eu saía da escola e deitava na sua cama. Era uma cama de casal que ocupava quase todo o pequeno quarto. Do lado dela, já via a caminha, aquela que ficava embaixo do sofá. Eu dormia na cama de casal com a vovó, e você ali.

Por mais que eu pedisse, você nunca me deixou dormir na caminha. Eu na cama grande e você na cama pequena, sempre. Era mais um dos seus jeitos de me mimar.

Durante a tarde jogávamos um monte de jogos. Foi você quem me ensinou os truques da dama e do jogo da velha. Tinha a maior paciência do mundo comigo. Nos distraíamos um com o outro.

Engraçado, mas eu não me lembro de ter alergia ao seu cigarro. Você sempre foi uma rara exceção.

Também lembro das nossas viagens para o Paraná. Nove horas dentro de um ônibus, e um preocupado com o outro sempre. Suas pernas ficavam inchadas, e eu, ansiosa, tinha vontade de ir no banheiro toda hora.

As coisas mudaram um pouco quando fomos definitivamente morar juntos. A casa era maior, mas parecia pequena para todos nós. Eu já estava mais velha e birrenta, e você também.

Você brigava comigo porque eu não parava em casa e vivia discutindo com a vovó – sabe, eu ainda faço isso hoje. Sempre fui mimada demais, chatinha demais, mandona demais. Ainda assim, às vezes eu estava no sofá e você vinha me dar dinheiro. Era o seu jeito de dizer que estava lá para mim.

Você foi ficando mais ranzinza, é verdade. Não podíamos falar alto e nem dar risada na sala. Aumentávamos o tom de voz e você elevava o volume da TV ao máximo, como quem nos mandava calar a boca. Ainda assim, sempre pedia pra que ficássemos vendo televisão - o "maravilhoso" Datena - com você.

Você sempre ia dormir sem dar boa noite. Pegava o seu jornal – o Agora, aquele que vinha com a revistinha de domingo que eu adorava – e ia para o quarto.

Hoje eu entendo que tudo deve ter sido difícil pra você. Ver as atenções da vovó divididas entre nós, me ver crescendo, ver eu e a mamãe namorando... Foi muita novidade, eu sei.

Mas ainda assim, você foi o melhor referencial de homem que eu tive na vida. Era briguento, ciumento, ranzinza... Mas era íntegro, honesto, tinha caráter. Eu, que me decepcionei com todos os homens que tentaram fazer papel de pai, tive em você meu melhor amigo.

Sei que quando você partiu já não estávamos tão próximos. Discutíamos um pouco e ficávamos distantes. Eu tinha 15 anos e nunca parava em casa. Você tinha quase 70 e não entendia nada de modernidade. Ainda assim, eu era a sua princesa.

E eu, egoísta que sou, quase não fui te visitar no hospital. Eu pensei que você fosse sair logo de lá. Tinha marcado de ir ao cinema com minhas amigas, mas minha mãe me ligou pedindo que eu fosse. Fazia um dia que você estava lá e você pedia pra que a gente não fosse visita-lo.

Eu fui e você logo pediu pra que eu fosse embora. Eu via nos seus olhos a sua preocupação de sempre, a de não dar trabalho para nós.

Ali eu soube que seria a última vez. No dia seguinte, quando o telefone tocou, eu sabia que era do hospital. Quando pediram para irmos até lá, eu sabia que a maca estaria vazia.

E eu, tola, nunca imaginei que fosse doer como doeu. E doeu porque eu sempre achei que você foi embora sem saber o quanto eu te amava.

E dói ainda hoje porque eu continuo cometendo os mesmos erros, e morrendo de medo da mamãe e da vovó irem embora sem saber o quanto eu as amo. Nem da Pandora eu sei cuidar, vô.

Queria que você ainda estivesse aqui brigando comigo. Sendo ranzinza, fumando seu cigarro, ouvindo o jogo do Timão pelo rádio – já que a vovó não deixava você ver na TV desde que foi parar no hospital depois do Mundial de 2000.

Você me deixou muitas coisas: o amor pelo Corinthians, pelo feijão da vovó, pelos jogos de tabuleiro e até por programas de auditório...

Mas eu sei que a lição mais importante você deixou na sua ida: “amanhã pode ser tarde pra dizer um ‘eu te amo’, Bárbara”. E justo essa eu ainda estou penando para aprender. Dá pra me ajudar um pouquinho daí, por favor?

Eu te amo, vovô. E muito obrigada. Você foi o melhor homem que eu conheci na vida, e o que eu mais amei e sempre vou amar também. 

Beijos da sua princesa. 

6 comentários:

  1. Eu chorei Bá, lembrei do meu pai, e do meu avô, que coisa linda, eu também estou aprendendo a ser menos orgulhosa e dizer a toda hora o quanto eu amo cada um da minha família. Saudades, beijos Isa

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    1. É, Isa... Temos que aprender todo dia a demonstrar mais nosso amor a quem é importante pra gente! Espero que a gente consiga!
      O importante é que a passagem deles por nossa vida não foi em vão. Deixaram muito amor e boas lembranças!

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  2. Lindo texto Bah, muito sentimento...parabéns!

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  3. O texto é lindo e o sentimento nele é mais maravilhoso ainda! E mesmo assim, ainda queria não ter lido e muito menos me identificado. Imagino que você também não gostaria de ter motivos pra escrevê-lo.
    Então, que fiquem vivas as lições deixadas e o amor cultivado! :')

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    1. Com certeza, Rái. Queria poder nunca tê-lo escrito. Mas, já que é impossível, que as lições doloridas sejam colocadas em práticas todo dia. O amor com certeza é para sempre! Obrigada :')

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