domingo, 3 de novembro de 2013

Zelo

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"De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento"
(Vinicius de Moraes - Soneto de Fidelidade)

Há anos eu finjo que acho bobagem a busca pela perfeição em cada detalhe. Digo que finjo, porque a verdade é que conheço poucas pessoas tão perfeccionistas como eu.

Sou das que se cobra nos mínimos detalhes. Daquelas que tenta sempre agradar os outros, que perde o equilíbrio e a paz quando comete algum erro , seja ele pequeno ou grande.

Mas eis que você chegou. Você, que me ouve falar horas sobre os meus defeitos e apenas encosta meu rosto no seu ombro, como se eles não importassem. Você que quase não pronuncia uma palavra sobre meus traumas – ainda que sofra comigo o efeito de todos eles -, e apenas me pede que eu enxugue as lágrimas.

Você que não me culpa por eu ser como sou. Nem por errar, e nem por tentar desesperadamente acertar sempre. Simplesmente me olha, me lê, e aceita, numa tentativa comovente de fazer com que eu tente o mesmo.

E aí, longe de ser sã, eu me culpo um pouco mais. Me culpo por deixar com que tantas coisas me impeçam de ser perfeita para você – irônico, eu sei.

E eu fecho os olhos, respiro fundo e controlo a minha vontade de sair correndo. Controlo a raiva que tenho dos acontecimentos que me causaram tantas cicatrizes. Controlo a culpa, a insegurança, a tristeza. Eu deixo o seu amor entrar.

Porque você me olha como quem diz que eu não preciso me explicar. Como quem diz que eu não preciso ter todas as respostas ou mudar de uma hora pra outra. Me olha como quem só deseja desesperadamente que eu saia desse pesadelo que vira e mexe volta à tona.

Você não expressa opinião sobre as pessoas ou os episódios ruins pelos quais eu passei. É como se respeitasse o santuário de lembranças, boas e ruins, que eu carrego comigo. Você faz com que toda essa loucura quase pareça normal.

E você me faz forte. Você pergunta se eu quero cafuné e me faz sentir protegida – como tantas vezes eu quis me sentir. Você me faz mil elogios e com apenas duas frases diz o que eu preciso fazer, mesmo sem pretensão de me obrigar a te ouvir. Você deixa as coisas serem, enquanto eu sempre tento controla-las.

E assim, tão diferentes, e quase opostos, eu me sinto bem ao seu lado. E eu lembro de como eu era antes de você e te agradeço apaixonadamente por ter me ajudado a construir quem sou hoje. Por ter me feito mais mulher, mais confiante, mais realizada, mais feliz.

Meus medos, traumas e cicatrizes continuam aqui, mas só ao seu lado eu consigo torna-los menores – do tamanho que eles realmente deveriam ser. E então, como quem pede um pouco de carinho, eu te peço pra nunca partir. Não só porque eu te amo, mas porque eu amo a pessoa que eu sou quando estou com você. 

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