quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Custe o que custar

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"Pai, pode ser que daqui a algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho, talvez"
(Pai - Fábio Jr.)

Hoje é aniversário do meu pai. O cara que demorou vinte anos para se tornar um super-herói. Que não brincou de cabana comigo, e tampouco me ensinou a andar de bicicleta. O cara que me ensinou o que é perdão.

Eu não sei qual é a cor favorita dele. Não sei que tipo de música ele ouve e nem qual prato ele mais gosta de comer. Somos quase estranhos, mesmo que às vezes – só às vezes – eu me ache tão parecida com ele.

Minha mãe diz que temos o mesmo nariz empinado – arrogante mesmo. Eu também acho. Também compartilhamos da mesma teimosia e de algumas fraquezas.

Meu pai não teve tempo para me ajudar com a lição de casa. Enquanto eu decorava a tabuada, ele lutava contra coisas que quase o destruíram.

Muitas vezes ele perdeu. Me perdeu um pouco pelo caminho também. Mas ao se achar, fez com que eu encontrasse uma forma de voltar para perto dele.

Claro que não foi fácil assim. Eu tive raiva, eu tive mágoa, eu tive medo. Eu passei finais de semana esperando por ele em vão. Eu não recebi ligações em aniversários e nem presentes no Dia das Crianças. Eu ouvi o Fábio Jr. cantar “Pai” um milhão de vezes enquanto chorava baixinho.

Eu também fui cobrada. Cobrada a ajuda-lo, a entendê-lo, a ser madura. Mas quem é madura com dez ou quinze anos?

Foi aos poucos, bem aos poucos, que eu conheci um pouco – que ainda é bem pouco mesmo – sobre a história e dificuldades dele. E só depois disso eu pude perdoa-lo.

Não precisei dizer a ele que o desculpava. Nem precisei dizer a mim mesma. Eu só resolvi olhar para frente em vez de sofrer pelo passado. De repente, eu me peguei cogitando a presença dele na minha formatura.

Sempre tive ao meu lado uma mãe maravilhosa. Maravilhosa mesmo. A mais guerreira que pode existir. A que é mãe, pai, melhor amiga, irmã, e quase parece uma filha mais nova às vezes.

Mas ter um pai é curioso. Mesmo que eu ainda tenha vergonha de dizer que o amo, ou que fique constrangida quando ele me abraça, posso chama-lo de amigo. Talvez sejamos mais isso do que qualquer outra coisa, afinal.

Não sei como as pessoas normais costumam definir o que é ter um pai. Mas hoje eu não tenho inveja delas. Hoje, quando ele diz “eu te amo do meu jeito” ao final das raras ligações, eu sei que é verdade – assim como o “eu também” que eu digo timidamente.

E ainda que eu tenha dito isso apenas uma vez a ele, sinto um orgulho enorme do exemplo de superação – que todos acreditávamos impossível – que ele é. Não há vício que seja maior do que a vida quando temos bons motivos para querer vivê-la.

Ele não é o melhor pai do mundo, não. Mas é o melhor que pode ser, e isso basta.

Hoje ele faz 49 anos. E é feliz. Só por hoje, custe o que custar.

14 comentários:

  1. Eu devo ter dito isso pelo menos umas 37 vezes, eu leio MUITOOOOOO e quando falo que você escreve bem, eu sei do que estou falando! Dom de poucos, você arrasa e eu amo os seus textos!
    Quando eu crescer quero escrever igual a você!!! PARABÉNS!

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    1. Sempre querida, né, Joy? *__*
      Obrigada por sempre dar essa força toda! Fico tão contente!
      Quero sempre orgulhar pessoas como você! Muito obrigada! <3

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  2. Bá, achei o texto lindo, muito bem escrito (pra variar...rs) e cheguei a me emocionar !!
    Só queria fazer um alerta, fale que ama quantas vezes tiver oportunidade, pois chega um determinado momento que isso torna-se impossivel !!
    Já que você ama (dá sua forma), não custa nada externar isso pois não custa nada para você, mas tenha certeza que para ele faz toda a diferença !!

    Beijos

    Ricardo

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    1. Ri, muito obrigada!
      Lembro até hoje do dia que a Rê cantou "Pai" pra você no karaokê e eu me acabei de chorar, rs.
      Vou seguir o seu conselho, sim! A gente nunca sabe o dia de amanhã também.
      Obrigada mesmo! :')

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  3. Bá, hoje faz 15 anos que meu pai se foi, e tenho um padrasto MA-RA-VI-LHO-SO que me criou, me deu educação e é um pai pra mim.
    CLARO que não é o meu ''pai'' o gordinho fofinho de cachos pretos que eu AMA estar junto e apertar aquela pança, mas ele é como se fosse.
    Pai e Mãe são insubistituíveis, não adianta, pode passar o tempo que for, você vai amar, e sempre lembrar, quero ser pros meus filhos/as o que sempre a minha mãe me passou, ser forte e guerreira, pois foi por ela, que eu tive coragem de seguir o meu caminho.
    Seus textos estão cada dia melhores, estou com saudades suas, da sua mãe e da sua cachorra meiga.
    Sinto falta das nossas tardes, e conversas foras, mas sempre estou em pensamento contigo.
    Fica com Deus, beijos Isa

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    1. Isa, você tem muita sorte de ter a família maravilhosa que tem. Tenho certeza que nada e ninguém pode substituir seu pai, mas sua mãe e seu padrasto são maravilhosos mesmo!
      Tenho certeza que você levará isso para os seus filhos também!
      Morro de saudades de quando vivíamos grudadas, e agradeço muito por você estar sempre acompanhando, mesmo que de longe. Também estou sempre torcendo pela sua felicidade, viu?
      Beijos pra você e pra toda sua família maravilhosa. Fica com Deus! <3

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  4. Amiga, que texto lindo. Me emocionei muito... me fez pensar o quão os dias passam rápido e agora que meu pai não mora comigo, o quanto ficamos dias longe e que isso deve acabar logo, muito logo.

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    1. Sua relação com seu pai é linda, amiga! Você puxou até os TOCs e jeito metódico dele! Haha, brincadeira :')
      O que importa é que vocês estão sempre presentes na vida um do outro, demonstrando amor e afeto. Lindos!

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  5. Como sempre, uma pessoa e escritora linda. ;)

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    1. ...que quer ser (mais) igual a você quando crescer, Drê! :') Obrigada!

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  6. Papai não mora cmg,mais sempre está por perto.emocionante o texto *-

    belezadecereja.blogspot.com

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    1. Família é sempre a coisa mais importante do mundo. :') Volte sempre, Brunna!

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  7. Emocionante o texto, ainda bem q tenho mes pais "pertin" d mim!
    Bjos!

    FB
    http://www.bypracinha.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada, Aline! Que bom, aproveite-os muito!

      Volte quando quiser! :')

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