quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Comer, rezar, amar, aprender

http://migre.me/hJZAN

"Diga a verdade, diga a verdade, diga a verdade."
(Sheryl Louise Moller)

Esse não é um texto comum. É um agradecimento, um carinho, uma prece. É uma maneira de dizer a alguém que ela salvou um pouquinho da minha vida.

Há pouco menos de três anos, eu comecei a ler o livro “Comer, Rezar e Amar”. Foi em uma das piores épocas da minha vida, quando estava deprimida, ansiosa e cansada. Para quem não sabe, o livro conta a história da própria autora, a Elizabeth Gilbert,  que, depois de um divórcio conturbado e um fim de relacionamento doloroso, resolve passar um ano viajando para Itália, Índia e Indonésia em busca do autoconhecimento.

Não consegui terminá-lo. Primeiro, porque realmente tinha achado a primeira parte do livro, em que ela conta sobre suas andanças na Itália, um pouco chata e monótona. Ela falava das delícias culinárias do país, da busca por prazer, mas naquela época, na minha vida, eu não sabia o que era prazer. Não entendia muito bem.

Guardei o livro novamente na estante, e só fui lembrar dele quando o emprestei para minha mãe, que estava prestes a viajar para a Itália. Achei que ela fosse gostar.

Não me pergunte porquê eu resolvi começar a lê-lo de novo, no começo deste ano. Ou pergunte, porque talvez eu saiba. Decidi, no final do ano passado, que preciso fazer uma viagem longa, pra longe, talvez sozinha. Tomei essa decisão depois de ler um livro de crônicas de viagens da Martha Medeiros (minha autora favorita). Emendei a obra na da Elizabeth Gilbert, por crer que os dois tratavam do mesmo tema.

Mas não tratam. Enquanto a Martha escreve para um viajante, Gilbert escreve para buscadores. Pessoas que buscam autoconhecimento, autocontrole, amor e paz. Coisas que eu busco há anos.

E voilá, embora eu ainda tenha achado um pouco monótona a parte em que ela conta sobre a Itália, foi impossível não me reconhecer nela mesmo: uma mulher apaixonada cem por cento do tempo, ansiosa, que morre de medo de ficar sozinha e não consegue nunca relaxar, porque está sempre em busca de mais e, claro, da perfeição.

Além disso, ela passa boa parte do livro se sentindo culpada por ter feito o ex-marido odiá-la quando ela pediu o divórcio, um sentimento que se enquadra perfeitamente a mim, que morro de culpa cada vez que preciso magoar alguém para fazer o que quero – na maioria das vezes eu nem faço, para evitar essa situação.

Depois de deixar a Itália e partir para a Índia, foi impossível não me identificar ainda mais. Praticante de ioga e meditação, Liz – afinal, agora que já li quase todo o livro, a gente já é íntima - tem uma enorme dificuldade de meditar: ela não consegue parar seus pensamentos ou deixar de se preocupar com o passado ou futuro. It's me, baby.

Liz dá importantes conselhos enquanto conta suas andanças. Coisas que ela aprendeu na Itália, ou no ashram onde passou quatro longos meses buscando a devoção. De dicas de meditação a reflexões sobre a nossa natureza ansiosa e medrosa – nossa porque é a natureza dela, minha e de muita gente.

Ainda não terminei o livro, veja bem. Ela acaba de chegar na Indonésia, e como sei que ela já comeu bastante na Itália e rezou o suficiente na Índia, estou pronta para ler sobre o que ela aprendeu sobre amor na Indonésia. E amor é sempre algo que me deixa meio tensa, entende?

O que eu queria dizer mesmo, é que em três capítulos Liz me reaproximou de Deus e, principalmente, de mim mesma. Me fez sentir menos culpada por ser como eu sou, e me fez ter vontade de melhorar isso. Melhorar, e não mudar. É que como ela mesma diz, Deus não quer que você vire outra pessoa para ser digna de amor, paz, felicidade. Aquele ideal de pessoa perfeita é balela, é claro.

Esse texto também não é uma recomendação de leitura. Longe disso. Eu, inclusive, acho que se você não for paciente, não passa do primeiro capítulo. E se você não tiver interesse em ioga, para no segundo. É um livro para todos, mas que nem todos gostariam de ler.

Talvez eu nem entenda o motivo que me fez vir até aqui e escrever um texto de duas páginas sobre isso, mas era algo que eu precisava fazer. É como uma prece de agradecimento. “Liz, assim como algumas outras pessoas, você ajudou a salvar um pouquinho da minha vida hoje.”

Separei, então, dois dos meus trechos favoritos – os que dizem muito sobre mim e mais me tocaram. Obrigada, Liz!

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho, a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não. Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesmo, e depois vão embora.

“Relaxar, obviamente, é uma empreitada assustadora para aqueles de nós que acreditam que o mundo só gira porque tem uma alavanca em cima que nós mesmos giramos e que, se largássemos essa alavanca por um instante que fosse, bem - seria o fim do universo. Mas tente largar, sacolão. Essa é a mensagem que estou recebendo. Fique sentada bem quietinha agora e ponha um fim à sua participação incessante. Veja o que acontece. No final das contas, os pássaros não despencam mortos do céu no meio do vôo. As árvores não murcham nem morrem, os rios não se enchem de sangue rubro. A vida continua. Até mesmo o serviço de correio italiano prossegue na sua marcha trôpega, tocando sua vida sem você - o que lhe dá tanta certeza de que seu microgerenciamento de cada instante deste mundo é tão essencial? Porque você não esquece isso?”

2 comentários:

  1. Esse livro também me salvou..big time!!

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    1. Sensacional, né, Mari? Tenho ele há muito tempo, mas o li na hora certa!

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