quinta-feira, 20 de março de 2014

Prosa

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Eu sabia que cada centímetro do meu corpo sofreria. Já previa como aquela história iria terminar: eu, a beira do abismo, contorcendo cada parte do meu ser. A dor seria imensa.

Me via suando frio, derramando lágrimas, exausta depois de tanto sofrer. Sabia que quando aquilo acabasse eu jamais seria a mesma. Já estava me preparando para as noites que passaria jogada no chão frio pensando desesperadamente num jeito daquilo acabar, enquanto sofria mais ainda em pensar que aquilo teria fim.

Todos os dias seriam de contradição. “Se isso não acabar, eu morro. Mas se não acabar, também.” Eu lutaria constantemente contra a minha emoção, mas também não deixaria minha razão em paz. Que inferno!

Eu já podia sentir o gostinho da depressão e do desespero. Me acostumaria com o escuro, com a cama desarrumada, com os livros de autoajuda. Me apegaria a qualquer crença – religiosa ou psicológica – que fosse capaz de me dar esperança de recomeço.

Eu sabia que ia ter fim. Sabia que a adrenalina estaria pronta para corroer cada lampejo de sanidade. Estava entrando no carrinho da montanha-russa e a ansiedade já dava os primeiros sinais.

Que saudade de um pouco de paz!

...

Acordei.

Despertei em um mundo muito mais sereno, colorido, amigável. O quarto organizado, as roupas não encharcadas de suor, o sol batendo na janela e o despertador avisando que meu dia – milimetricamente planejado, é claro – estava prestes a começar.

Pura paz.

Mornidão.

Chatice.

...

No meu ser inteiro, há duas partes. Contraditórias. Conflitantes. Insatisfeitas. Ainda que uma não possa existir junto a outra, elas coexistem.

Paradoxo. Complexo.

Cansativo. 

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