quarta-feira, 12 de março de 2014

Sobre carinho, ou a falta dele

http://migre.me/iia26

"Now no more smiling mid crestfall
No more managing unmanageables
No more holding still in the hailstorm
Now enter your watchwoman"
(Alanis Morissette – Guardian)

Hoje li uma nota sobre uma terapeuta que, depois de passar anos lidando com pacientes que carecem de atenção, resolveu empreender oferecendo a eles um serviço aparentemente simples: carinho.

Não entro no mérito de julgar quem decide pagar para receber cafunés ou dormir de conchinha com alguém (sim, ela faz isso), e nem na questão psicológica de como o afeto, se tornando um produto comercial, pode fazer milagres.

O que me choca é o simples fato do carinho, ainda que visto sob a ótica da psicologia, ter virado um produto. Porque, vejam bem, por mais que a ideia possa parecer absurda, ninguém – ou quase ninguém – empreende oferecendo um produto serviço para o qual não haja público. Por isso, o foco da questão é: tem gente precisando muito, muito mesmo de carinho. Tem gente pagando por um abraço, por um afago, por atenção.

Em que parte da história do mundo nos tornamos assim, tão egoístas? Quando foi que deixamos de ser bons pais, mães, amigos, namorados? Quando foi que nos demos ao luxo de não olhar o próximo, de não querê-lo bem, de não ajudá-lo quando ele precisa? Quando foi que a solidão virou o mal do século, afinal?

Somos mais de 7 bilhões de pessoas no mundo e ainda existe gente que carece de atenção. Essa terapeuta diz que o avanço da tecnologia fez com que as relações humanas ficassem esquecidas. É como aquela tirinha que diz “se eu grudar seu celular na minha testa, será que você olha para mim enquanto eu falo?”.

Confesso que me enquadro no caso. Já ouvi a pergunta de familiares e até mesmo do meu namorado. Meu maior contato com minha mãe é por e-mail, e é por meio deles que eu consigo ser mais afetuosa. Quando foi que a conversa face a face virou constrangedora? Quando foi que um gesto de carinho se tornou dispensável?

Passamos a vida planejando a autossuficiência, mas que atire a primeira pedra quem nunca sentiu falta de um corpo quente ao lado na cama. E não estamos falando de sexo, estamos falando de afeto, compreensão, companhia.

O mal do mundo pode ser a falta de educação, de políticas públicas, a corrupção, a ambição, o capitalismo, a desonestidade e etc. Mas será que também não é a falta de empatia? A dificuldade que o ser humano tem em se colocar no lugar do outro?

Porque, veja bem, pode ser que pra você esse tipo de coisa não seja importante. Mas quando encontramos alguém que se importa, temos a maior dificuldade do mundo em entendê-lo e não julgá-lo.

Acho mesmo que o carinho, o afeto e suas demonstrações estão em falta nesse mundo. Mas também acho que o primeiro passo para resolver a questão é trabalhar a empatia de cada um. Ninguém precisa ser igual a ninguém, mas se colocar no lugar do outro, clichê ou não, ainda me parece primordial.

2 comentários:

  1. Eu me encaixo nos dois lados desse texto. No de estar distante da minha mãe por exemplo, de não desgrudar do telefone. E me encaixo no "solidão", no precisar de atenção. Eu ficou puta quando eu estou mal e todo mundo me olha com cara de "foda-se, não é problema meu." Ás vezes ficou assim, é porque essa mesma pessoa que me olha com cara de "foda-se" é quem eu ajudei quando estava na mesma situação que a minha. Não que eu faça algo esperando em troca. E fico puta de raiva também quando a pessoa nem sabe o que esta rolando e já sai julgando. Eu julgo muitas coisas, mas tive que tomar muito na cara pra aprender a não julgar sentimentos e aprender que cada um sente de um jeito. E isso me tornou mais empática.

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  2. Sei como é, Ariana. E é normal que, mesmo que a gente não faça as coisas esperando algo em troca, a gente tenha a expectativa de que as pessoas ajam como a gente costuma agir. Tenho trabalho muito isso, porque acabo me decepcionando fácil com as pessoas. Talvez isso também seja falta de empatia, afinal, não nos colocamos no lugar do outro, que é outra pessoa, outro mundo, tem outros gostos. Por isso as relações humanas são tão difíceis.
    O importante é aprender, a cada dia, como ter mais empatia e como julgar menos os sentimentos do outro. "Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é."
    Obrigada pela visita e volte sempre! :)

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