sexta-feira, 9 de maio de 2014

Eu seria você



"Se eu pudesse escolher
Outra forma de ser
Eu seria você"
(Biquíni Cavadão - Quanto Tempo Demora Um Mês)

Minha mãe era aquela que, de fim de semana, me fazia vestir dezenas de roupas e figurinos só para tirar fotos minhas no quintal. É aquela que penteava meu cabelo e queria sempre que eu fosse a mais bonita na escola.

Minha mãe, que sempre trabalhou muito na vida para me dar tudo que me deu, morria de medo que eu um dia chamasse minha avó de “mãe”, já que era com ela que eu passava a maior parte do tempo. Ela me deixava na casa da mãe dela logo de manhã, bem cedinho, e depois ia me buscar correndo para me levar para nossa casa.

Ela reclamava que eu estava gordinha, mas não me impedia de jantar todo dia duas vezes: uma na casa da minha avó e outra na nossa. Na época das vacas mais gordas, vivia me levando ao shopping para comprar roupas novas.

Minha mãe é aquela que brigou com o cara que disse que meu desenho estava feio. Aquela que me defendeu de todo o mal o quanto pôde, mesmo que às vezes tenha falhado, afinal, ela é humana.

Minha mãe foi o ser humano que eu mais vi sofrer na vida. E também o que mais se levantou e deu a volta por cima diante das dificuldades. Minha mãe é do tipo que acorda cedinho para trabalhar com os olhos inchados da noite passada em que chorou, mas não deixa de seguir em frente - e eu aprendi isso com ela.

Ela foi a primeira pessoa da qual eu tive ciúmes na vida. A primeira pessoa que eu tive medo – infundado, é claro – de perder. A primeira pessoa pela qual eu achei que estava apaixonada: era tanto amor, não cabia em mim.

Quando eu cresci um pouquinho, ela reclamava por eu não ser tão vaidosa quanto ela. Mas a verdade é que eu não conheço ninguém tão vaidosa como ela – e nem tão linda.

Minha mãe me buscava na escola quando passou aqueles anos – bem difíceis – desempregada. Quando o sinal soava, lá estava ela, junto às mães ou avós das minhas melhores amigas. Lembro até hoje do dia que ela disse que eu já era grandinha para voltar sozinha.

Ela, todo fim de ano, ia até a diretora da minha escola pedir que ela renovasse minha bolsa de estudos integral. Era sempre aquela ansiedade para saber a resposta, mas ela sempre saía de lá sorrindo com uma boa notícia.

Por isso, ela sempre me cobrou muito na escola, desde pequena. No meu primeiro colégio, ela fazia listas e listas de mais de 70 perguntas e respostas que eu tinha que decorar antes da prova. E ela me tomava as respostas sempre.

Quando cheguei na quinta série, ela disse que eu já podia estudar sozinha. Ainda assim, nunca me deixou tirar uma nota vermelha na vida. Quando eu tirei meu primeiro zero, na prova de Geometria (eu sempre odiei mais do que tudo essa matéria), liguei correndo para ela, aos prantos. Ela brigou comigo, mas me perdoou.

Ora, mas por que eu tinha que contar para ela? Porque ela sempre foi minha melhor amiga. Eu nunca consegui esconder nada dela, nem que eu quisesse ou precisasse. De todos os meus milhares de medo, nenhum era tão grande quanto o de perder sua confiança.

Talvez isso tenha feito com a gente brigasse bastante. Ela não gostava muito do meu primeiro namorado, mas eu nunca escondi que namorava com ele mesmo assim. Da mesma maneira, ela sempre soube que meus melhores amigos eram daquele tipo que ela morria de medo.

Teve o dia em que chamaram ela na escola pra falar que eu estava andando com más companhias. No outro, o coordenador do meu antigo colégio foi até a porta da minha casa, dez horas da noite, porque estava preocupado comigo. A gente quebrou bastante o pau nessa época, mas nunca deixamos de ser sinceras uma com a outra – às vezes mais que o necessário.

Depois os anos passaram e eu entendi o que ela estava querendo dizer. Lembro de uma noite em que pedi desculpas por ter brigado tanto com ela por esse tipo de coisa. Ela, na maioria das vezes (sou orgulhosa mesmo), estava certa.

Minha mãe foi a primeira a perceber que aquele ex-namorado que me fez sofrer não era boa pessoa. “Sai dessa, Bárbara”, ela repetia. Também brigamos horrores – horrores mesmo – por isso, mas é claro que ela estava certa.

Minha mãe foi a primeira pessoa pela qual eu dei um tapa na cara de alguém. É que ninguém fala mal da minha mãe na minha frente, veja bem.

Hoje eu cresci e ela é como uma irmã. Nós nunca tivemos esse lance de hierarquia maternal muito claro, e eu agradeço por isso ter feito com que nós tenhamos nos tornado tão amigas – ainda que às vezes isso atrapalhe, é claro.

Ela me manda e-mails diariamente perguntando se estou bem, desabafando sobre os problemas dela ou me aconselhando nos meus. Ela reclama que me vê pouco, que eu sou mau humorada e pouco carinhosa, mas continua me dando colo e palavras doces sempre que eu preciso.

Brigamos muito menos do que antes, compartilhamos sonhos e fazemos planos. Ela foi a pessoa que mais me apoiou na realização de dois sonhos: meu intercâmbio e meu primeiro carro.

Ainda somos terrivelmente diferentes e insanamente iguais. Ainda me sinto falando ou brigando com um espelho, às vezes. Vai passando o tempo e quando eu penso no dia em que estaremos morando em casas separadas, dá até um aperto no peito.

Olho para ela e para minha avó – que é o outro grande amor da minha vida, a outra mulher para quem eu devo tudo que sou – e sei que sou muito abençoada por tê-las em minha vida, tão próximas de mim.

Eu demorei pouco tempo na vida para descobrir que eu queria ser jornalista quando crescesse. Mas demorei menos ainda para ter certeza de que tudo que eu gostaria era ser metade do que ela é.

Eu amo você, mãe!

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