terça-feira, 7 de outubro de 2014

Minha primeira pedalada

Andar de triciclo: mais difícil do que andar de bicicleta. Eu juro.

"Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem,
Ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém"
(Renato Russo - Mais Uma Vez)

Minha primeira reação foi dar risada. A segunda, também. A terceira foi pensar em como algo que parecia tão difícil se tornou fácil. Lá estava eu, com quase 22 anos, andando de bicicleta (bi-ci-cle-ta, não triciclo) pela primeira vez. O vento soprava no meu rosto e eu ria.

Quando eu era pequena, minha mãe comprou para mim uma Caloi rosa, daquelas com cestinha e buzina. Era linda. Lembro até hoje do dia que a levamos para casa.

Primeiro, comecei a andar com as duas rodinhas. Tudo ótimo. Depois, foi a vez de tentar começar a pedalar com uma só rodinha. Tudo indo. Quando as rodinhas se foram e eu tive que andar por mim mesma, falhei.

“Falhei” é uma boa palavra. Eu tinha dez anos de idade e sentia que tinha falhado. Agora, me diz, quem com dez anos é gente de verdade para falhar em alguma coisa?

Andar de bicicleta foi a primeira coisa que deixei de fazer por medo de decepcionar alguém. Foi a primeira coisa da qual abri mão para escapar das cobranças, das broncas, da pressão. Como as outras crianças, eu não tinha tanto medo de cair. Tinha medo do que os outros diriam quando me vissem no chão.

Aposentei a Caloi. Quando minha mãe precisou de grana, deixei que ela vendesse a bicicleta. Eu tinha crescido e ela nem servia mais para mim mesmo (leia: “Ufa! Agora eles não vão mais me pressionar para eu aprender a andar nisso!”).

Me lembro de ter tentado aprender mais umas três ou quatro vezes. Mas, para mim, não era entendível que uma pessoa pudesse, de fato, se equilibrar naquele troço de duas rodas. "Aceita que dói menos", Bárbara.

É engraçado porque, em 2012, eu não votei no Haddad. Achava que ele não tinha experiência suficiente para ser prefeito de uma cidade como São Paulo. Queimei a língua, ainda bem. Não imaginava, por exemplo, que as ciclovias que ele inventou fossem ser responsáveis por reacender em mim a vontade de aprender a andar de bicicleta.

Foi há três semanas que eu procurei uma organização que ensina pessoas de todas as idades a pedalar. Me enchi de coragem e pedi um “bike anjo”, rezando para que ele fosse paciente como os seres celestiais. Pensei que precisaria de, no mínimo, dez aulas para avançar um pouco.

Foram quatro voltas acompanhadas pelo instrutor, que fazia cooper enquanto segurava o meu guidão. Se ele me soltasse, era óbvio que eu cairia, pensava. Quanto tempo será que restava para o primeiro tombo?

Enquanto ele me explicava segredos sobre a velocidade e o freio, eu ainda permanecia apreensiva. Quando ele me disse que aquilo era uma questão de auto-confiança, quis abraça-lo e dizer que “sim, eu sei, eu compreendo”.

Não disse nada. Ele sugeriu que eu tentasse pela primeira vez e eu, rindo, disse que não daria muito certo. Dei impulso e... Pedalei. Pedalei sem parar. Pedalei sem cair. Pedalei sem rodinhas e sem alguém segurando meu guidão. Pedalei sem gritos, broncas ou pressão. Pedalei e gargalhei. Pedalei e agradeci por ter conseguido.

Na semana da criança, me deu vontade de dizer para o mundo que nunca é tarde para fazer algo pela primeira vez. Nunca é tarde para voltar a ser criança. Nunca é tarde para vencer um medo, um trauma, um obstáculo.

E não precisa ter vergonha, não. Não precisa se preocupar com o que os outros vão pensar de você. Isso é bobagem. Sempre foi.


Apenas continue pedalando. O mundo se abre para você quando você se abre para o mundo.

Observação: O meu muitíssimo obrigada ao Fabio, que teve toda a paciência e o cuidado do mundo para me ajudar nessa empreitada. Fabio, você e o Bike Anjo mudaram a minha vida! <3 i="">

2 comentários:

  1. Me apresentaaaa esse bike anjo, Bá! Assim como você, só tive realmente vontade de aprender a andar de bicicleta agora, com 21 anos nas costas. Motivos um pouco parecidos com os seus, inclusive.

    Enfim, belo texto, as always. <3

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    1. Tami, pede um bike anjo procê e vem pedalar comigo! <3
      http://bikeanjo.org/

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