sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

De dentro pra fora


"Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixa molhar 
Pra receber o sol quando voltar"
(Marcejo Jeneci - Felicidade)

Desde pequena eu tenho muito medo de duas coisas: de tudo que dói e de tudo que me faz sentir solitária. E, principalmente, de como me sentir solitária dói. Porque eu acho que ninguém no mundo deve sofrer por estar apenas em sua própria companhia - que, supostamente, deveria ser a melhor do mundo. 

Não foram nem duas, nem cinco e provavelmente nem dez as enrascadas em que me meti e que sustentei por bastante tempo apenas para evitar essas duas coisas. E dar um basta nessa fuga foi um dos principais motivos que me fizeram vir morar em outro país. 


Quando você está longe de casa, não tem como fugir. Todos os sentimentos que você tenta enterrar nas frestas da sua rotina, da sua zona de conforto, vem a tona. E você tem que enfrentar um por um, dia a dia.


E você para de sofrer por isso quando percebe que é exatamente isso que te faz crescer.


Quando cheguei em Madrid, o que mais me fazia falta eram amigos. Eu me sentia constantemente sozinha, mesmo quando estava acompanhada. Eram as dificuldades da língua, as diferenças de cultura, os assuntos e contextos bem diferentes. Mas era também, principalmente, a minha má vontade. Por mais que as pessoas se esforçassem diariamente para me mostrar que eu não estava sozinha, eu teimava em passar meu tempo sentindo falta de quem estava longe.


A segunda coisa que mais me incomodava era a incerteza. Incerteza de como as coisas vão ser aqui e principalmente a incerteza de como as coisas vão estar quando eu voltar para o Brasil. E a minha vontade de que tudo continuasse igual era tão grande, e isso era tão importante para mim, que eu frequentemente dedicava a maior parte dos meus dias a tentar conservar minhas relações para que elas não mudassem ou terminassem. 


Percebi que meu esforço para não me sentir sozinha quando voltasse para o Brasil estava me fazendo sentir sozinha aqui. E que viver mais nove meses tentando controlar tudo seria impossível. 


Então, me lembrei do que me fez desejar passar um ano inteirinho longe de casa: a solidão. Porque, de verdade, eu nunca nesse mundo me senti sozinha - não sei se porque nunca estive ou porque nunca me deixei estar - e eu acho que, na realidade, a gente quase nunca está só. Mas eu precisava muito de um tempo meu, para mim e comigo. Um tempo em que o meu humor não dependesse do humor do outro - se o outro está feliz, eu estou feliz, se o outro está chateado, eu estou chateada também. E estava deixando isso passar porque me sentir só sempre doeu e me dedicar aos outros sempre me pareceu mais fácil.


Na última vez em que fiquei realmente triste aqui em Madrid, um amigo me disse uma coisa muito simples, porém incrível: pare de olhar as coisas pelo lado negativo. Pode ser que durante o intercâmbio você esteja longe das pessoas que ama, mas aí de repente se dá conta que em dois meses conheceu pessoas incríveis que cuidam e se importam de você todos os dias. Pode ser que haja dias em que você fique só, mas você vai perceber quanto tempo livre tem para fazer aquelas coisas que sempre quis e nunca fez. Pode ser que falar outro idioma te pareça um porre às vezes, mas conhecer outras culturas te faz uma pessoa melhor em diferentes sentidos e situações. 


E aí, um outro amigo me disse uma verdade maior ainda: você tem um ano em Madrid e uma vida inteira no Brasil. Não parece fazer muito sentido passar meus 300 e poucos dias aqui vivendo o que acontece lá, parece? 


E depois de quase dois meses, acordei em uma sexta-feira e Madrid me parecia uma cidade incrível. Meus amigos, os melhores. E eu, uma garota de sorte. E mais que isso, alguém perfeitamente capaz de ser feliz sozinha - porque a felicidade, como diz a imagem aí em cima, vem de dentro. 


E hoje, aqui dentro, está ensolarado.

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