terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Enlou-cresci



"Ponha intenções de quermesse em seus olhos 
e beba licor de contos de fada. 
(...) 
Enlou-cresça"
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu enlouqueci.
Peguei meu cofre de certezas bem guardadas e seguras e joguei no fundo do mar, onde sabia que seria impossível recuperá-las. Apertei o restart e reiniciei o sistema todinho, assim, do zero. Não sabia onde ia dar, mas sabia que jamais poderia voltar para o mesmo lugar, não sendo a mesma pessoa que eu era antes. E eu já não sou.


Há 360 dias atrás eu não imaginava, nem nos meus mais loucos sonhos, que estaria onde e como estou agora. Eu só tinha uma vontade louca de fazer algo diferente, buscar algo maior, fugir. E eu tive sorte. A vida me deu exatamente o que eu pedi, mas não sem antes me mostrar que não seria fácil.

Em 2015, eu abri mão de toda a minha estabilidade e, principalmente, do conforto de ter tudo e todos que amo ao alcance das minhas mãos. Eu abandonei o que me sufocava e tive que aprender a lidar com a tão desejada e tão imprevisível liberdade. Saber o que fazer com ela é mais difícil do que se pensa.

Aprendi a dizer "não". Mais "não" para os outros e menos "não" para mim. E entendi que negar o que sinto e desejo na intenção de não magoar outra pessoa pode ter exatamente o efeito contrário. Magoar às vezes é preciso e se sentir culpada por isso pouco ajuda. 

Tive que bater o pé e teimar com o mundo para fazer as coisas que queria e que iam contra a opinião alheia e até mesmo o politicamente correto. E enxerguei a imensidão de coisas que estava fazendo só para agradar alguém. E a imensidão maior ainda de coisas que eu não estava fazendo só para não decepcionar outra pessoa. A parte boa foi enxergar o que eu realmente quero. E, me despindo de qualquer personagem, também o que eu não quero.

Sobre o amor, eu aprendi sobre o tempo. Que o tempo modifica sentimentos e afasta pessoas com a mesma intensidade que atrai. Aprendi que há sentimentos que perduram uma vida e que há outros que precisam de muito menos para trazer algo novo. E aprendi que, às vezes, o melhor que uma pessoa pode ser para a gente é uma boa e breve lembrança, porque isso às vezes vale mais do que prolongar uma relação que não funciona. E entendi que aproveitar esses encontros pontuais e casuais da vida, sem prolongá-los e romantizá-los, é o que nela há de melhor (e talvez de mais difícil). 

Descobri que tenho amigos incríveis, alguns feitos há dez anos, outros feitos há dois meses. Me senti muito sozinha, mas nunca desamparada. Aprendi a confiar mais, a me abrir mais, a ser mais otimista. Em casa, entendi que já era hora de andar com meus próprios pés e essa decisão doeu e ainda dói entre nós até hoje, mas, pouco a pouco, as coisas se encaixam.

Neste ano, eu aprendi a me ouvir, a me conhecer e a buscar o que eu desejo. Aprendi outra língua, conheci novos países e um monte de gente que eu jamais sonhei em ter na minha vida. Bebi demais, dancei bastante, chorei um monte e sorri mais um bocado. E ainda assim, só consigo pensar que 2015 foi apenas um preparo para o que vai ser 2016.

Em 2015, eu me descobri. Enlou-cresci. Em 2016, preciso decidir o que vou fazer com isso. A montanha-russa não para. 

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