segunda-feira, 24 de outubro de 2016

366 dias



Eu demorei muito para escrever sobre Madrid quando cheguei em Madrid. Talvez porque eu tenha demorado muito para de fato chegar em Madrid. E quando eu digo chegar, quero dizer chegar inteira, completa, não pela metade.

Quando eu embarquei naquele 23 de outubro, a única coisa que eu tinha certeza é que seria difícil e maravilhoso. E foi, em igual proporção. 

Eu tinha uma porrada de dúvidas sobre o que ia acontecer: "Será que vou conhecer gente legal? Mas e se eu não falar espanhol tão bem? Será que vou ter dinheiro para me bancar até o final?". Mas eu também tinha uma porrada de dúvidas sobre o que eu estava deixando aqui: "Será que tudo isso vai estar aqui quando eu voltar? Será que o que eu deixei pra trás um dia volta? Será que tudo me espera?".

Eu demorei pra chegar em Madrid porque, por um bom tempo, eu quis manter um pé lá e o outro aqui. Em dois barcos que tinham rumos completamente diferentes e incontroláveis. E não era como se eu aproveitasse um pouco do sacolejar dos dois, não. Era como se eu estivesse o tempo todo me esforçando para não perder o equilíbrio e ser engolida pelo oceano. 

A decisão de ir para Madrid tinha sido acompanhado por uma outra série de decisões um tanto quanto difíceis Mas todas eram muito, muito necessárias. O simples fato de tomá-las já me fez libertar de muitas amarras. De repente, eu era a pessoa mais livre do mundo. Eu não sabia muito bem o que fazer com isso.

“Soy el amo de mi destino, soy el capitán de mi alma”
(William Ernest Henley)

Minha viagem para Madrid foi principalmente sobre isso: aprender a ter liberdade nas pequenas e grandes coisas. Sobre comer chocolate de janta sem culpa, sobre sair sem dar satisfação, mudar de casa, viajar repentinamente, levar quem eu quisesse para o meu quarto e não precisar me explicar a ninguém. Foi louco.

Mas isso não quer dizer que eu não tinha nenhuma responsabilidade. Quando você está morando fora, ser feliz já é uma responsabilidade. Você está em outro país. Vivendo a vida que um monte de gente sonhou. Fazendo um mestrado incrível. Conhecendo gringos sexys. Você tem que estar feliz. Não tem essa de acordar chorando e dizer para os amigos "quero voltar". Porque ninguém te entende. E também não dá para dizer para a família "eu estou péssima". Porque eles não merecem. Porque você precisa ser forte. Tem que dar orgulho, e não preocupação.

Eu acordei chorando muitos dias. Estive péssima um bocado deles. Mas em todos eles tinha um italiano louco que dormia no quarto ao lado e me dizia que ia ficar tudo bem. Ou uma mexicana linda que me levava ao teatro ou para jantar. Uma chilena que tornava a vida mais leve que uma pluma. Dois espanhóis que batiam na porta do meu quarto todo dia dizendo "Bá, vamos assistir um filme?"

Eu já disse e repito: num intercâmbio, invista em pessoas. Invista em pessoas muito mais do que em livros, viagens ou luxo. Porque você vai precisar de uma família de amigos - é maravilhoso ter uma.

Na primeira noite em que eu bebi demais e chorei foram eles que me ajudaram. Na segunda, na terceira e na vigésima eles não desistiram de me dizer "sei que é difícil, mas estamos aqui, somos uma família". E foram. Para assistir séries ou para ir para a balada bêbados de vinho e muito rum. 

Não foi, no entanto, uma viagem de luxo - foto de perrengue a gente não posta nas redes sociais. Foram várias noites dormindo mal e acordando ansiosa por causa de grana. "E se não desse? E se o dinheiro não caísse? E se o euro não parasse nunca de subir?". Vai lá, faz anúncio de aula de português, manda e-mail pra todos os editores que você conhece - e também uns que não. Pede dinheiro para a mãe - e morre um pouquinho por dentro por isso. 

Eu realizei uma porção enorme de sonhos por ter decidido ir para Madrid. Eu conheci o Louvre. Eu entrei no Coliseu. Eu vi o Saara. Nos últimos quinze dias de mochilão eu quis largar tudo e viajar pra sempre. Mas era mentira. Eu sempre, desde o momento em que entrei no avião naquele 23 de outubro, quis voltar. 

Eu voltei. Voltei dois meses antes da data de retorno inicial. E voltei antes por uma série de motivos que ninguém nunca entendeu - talvez nem eu. E voltar foi MUITO, muito mais difícil que ir. Me despedir de Madrid foi a coisa mais difícil que eu fiz a minha vida. Naquela momento, sim, eu tinha certeza de que nada estaria ali quando eu voltasse, de que nada me esperaria, de que era um adeus. Ninguém nunca me viu chorar tanto quanto aquelas pessoas no saguão do aeroporto.

Desde que cheguei, em 15 de julho, não me arrependi em nenhum momento de ter voltado. Percebi que muitas coisas não estavam iguais, muita gente não estava me esperando - inclusive as que eu pedi que fizessem isso meio que se perderam pelo caminho. A vida andou pra todo mundo, mas eu não tinha perdido nada - as redes sociais estão aí pra te fazer presente em cada passo da sua rede de amigos. 

O que ficou é uma bolha enorme de ansiedade que vira e mexe mostra que pode estourar: "O que eu faço com tudo que eu aprendi? Como não magoar as pessoas que esperam que eu ainda seja a mesma se eu já não sou? Vou atender às expectativas dos outros e às minhas próprias do que seria a minha vida pós-intercâmbio?"

Junto com ela, vem uma incerteza em forma de vazio. Quando eu saí daqui, eu tinha certeza do que eu queria. Hoje, eu já não tenho. Troquei um par de objetivos, outros simplesmente deixaram de fazer sentidos, criei novos. Mas parece que tudo ainda permanece uma grande bagunça, nem lá e nem cá. Não quero o que eu queria antes, mas isso não quer dizer que eu saiba o que eu quero agora

O bom é que eu tenho toda a liberdade dentro de mim. Não preciso mais largar um emprego, terminar um relacionamento e pegar um avião para ser livre. Hoje eu simplesmente sou. 

Eu demorei muito tempo para escrever sobre Madrid. Mais precisamente, 366 dias. Porque eu nunca escrevi sobre Madrid como escrevo hoje - inteira, completa, não pela metade. Sou gratidão pela ida, pela permanência e pela volta. 

Te quiero, Madrid.

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