segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Destino ou sorte



Ainda cheira a tinta fresca na memória a passagem de ano de 2015 para 2016. Era inverno em Madrid e fazia muito frio. Ainda assim, era impossível assistir à contagem regressiva na Plaza del Sol, no centro da cidade. Foi por isso que escolhemos passar a virada no Templo de Debod, meu lugar favorito em Madrid. 

Apesar da vista panorâmica da cidade, quase não houve queima de fogos para assistir. Lembro que cada um de nós — entre brasileiros, chilenos e alemães — , segurava uma daquelas velas de aniversário das quais eu sempre tive medo de chegar perto.

Estávamos cinco horas a frente do fuso-horário do Brasil. Ainda era cedo por aqui quando comecei a enviar, um pouco alterada, os primeiros áudios de “feliz ano novo". Eu estava realmente feliz. Se fosse verdade aquela teoria que diz que o que você faz na virada diz muito sobre como vai ser seu novo ano, 2016 seria incrível: eu estava em Madrid, rodeada de gente de vários lugares —com primeiras, segundas e terceiras intenções — e prestes a pegar a chave do meu primeiro apartamento. 

Não esperei sequer os abraços de “feliz ano novo” acabarem quando mandei a primeira mensagem para quem estava do lado de cá, na outra ponta do oceano. Era um desejo de um 2016 incrível junto a um pedido de “me espera”. À 0h daquele 1 de janeiro eu tinha tudo, mas ainda pedia ao universo uma única coisa: que você me esperasse voltar.

Na primeira metade de 2016 eu conheci sete países em dois continentes diferentes. Fiz a especialização que sempre quis com profissionais que sempre admirei. Aprendi uma língua nova. Morei sozinha. Fiz um mochilão. Dancei reggaeton como se não houvesse amanhã.

Ainda assim, nada do que eu planejei para 2016 aconteceu como eu esperava. Esse foi o ano em que a vida virou para mim e disse: eu não sou esse conto de fadas que eu fui até agora. Nem sempre os melhores empregos serão seus. Nem sempre as pessoas só te dirão sim. Nem sempre o que você quer vai vir até você. Eu sou difícil, às vezes, sabe? Você vai encarar?

A gente se perdeu no meio do caminho, se encontrou em outros braços, deixou até de se falar. Sofri por outro alguém o que eu jurei não sofrer mais por ninguém. Antecipei em dois meses a passagem de volta porque descobri que esse negócio de morar longe não era para mim. Voltei e tudo isso me parecia uma sucessão de derrotas e frustração. Mas por destino ou sorte, você estava aqui.

Estava aqui para me ouvir reclamar sobre tudo que eu queria que fosse diferente, mas não foi: o emprego, o apartamento, o saldo na conta corrente. E para me lembrar de toda a sorte que tive: as viagens que fiz, os lugares que conheci, a experiência que agreguei. Estava aqui ainda que, nós dois sabemos, eu não merecesse. Estava aqui para me ensinar, pelo amor ou pela dor, a ter paciência — o que até hoje ninguém conseguiu.

Sei que, dessa vez, à 0h do dia 1 de janeiro eu não terei tudo que quero — mas, vou agradecer por ter tudo que preciso. E vou continuar pedindo ao universo uma única coisa: você. 

Feliz ano novo.

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