domingo, 22 de janeiro de 2017

Os dispostos sobrevivem



Lembro de um texto que vivia percorrendo a internet quando eu era mais nova. Ele dizia que "eu te amo" não diz tudo; que demonstração de amor tem pouco ou nada a ver com palavras e muito a ver com as pequenas atitudes do dia a dia.

Eu sempre mantive relação estreita com as palavras. Apaixonada por livros, letras de música, jornais e revistas. Não por coincidência, me tornei jornalista. Tem quem se expresse com dança, pintura, esporte ou outras artes. Eu, não. Eu sou de ler, escrever, falar.

Como a vida nem sempre nos dá o que a gente quer, mas sim o que a gente precisa, não é grande surpresa quando a gente cruza com pessoas que, se não são nosso oposto, são bem diferentes da gente.

Já bati cabeça o suficiente para parar de romantizar relações complicadas. Amores difíceis não são lindos - são difíceis. A infindável saga para tentar mudar, melhorar ou aproximar o outro não é nenhuma prova de amor - mais do que isso, faz mal.

A linha, no geral, é bem tênue. É maravilhoso encontrar alguém que te liberta de um punhado de futilidades, que te desperta para o peso desnecessário que você carrega e as coisas pequenas com as quais se importa. Alguém que, de fato, quebra as amarras.

Não deixa de ser, no entanto, um teste diário. É esperar do outro todo dia uma coisa que não pertence a ele e ter que lembrar, constantemente, que o problema é a sua expectativa. E quando ainda assim isso te incomoda, lembrar que estar ou não com alguém tão diferente de você é uma escolha sua - e toda escolha tem seu preço.

Tem momentos em que isso é extremamente cansativo. Na maior parte deles, porém, extremamente libertador. Tem um quê de abdicação que a gente questiona todo dia - porque, no fundo, ninguém gosta de abrir mão - e um outro de evolução inquestionável - é bonito mesmo esse lance de somar sem idealizações.

Dizem por aí que é difícil amar alguém muito semelhante porque ninguém gosta de verdade de encarar todo dia o próprio reflexo. Mas também não é fácil amar alguém que está do lado oposto e tentar se aproximar dele atravessando todo dia essa corda bamba.

Vale a pena? Tudo vale a pena quando a alma não é pequena te faz alguém melhor. Quando há equilíbrio, esforço e, principalmente, flexibilidade.

Os opostos, pode ser verdade, se atraem. Mas os dispostos... Esses sobrevivem.

Um comentário:

  1. O tanto que por amor sofremos vem do ser tão pouco o que sobre amar sabemos.
    GK

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