quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Sobre uma vida passada

Reprodução: Tumblr

Sempre que me perguntam sobre a saudade que sinto de Madrid, penso no frio gelado que cortava meu rosto nos vinte minutos de caminhada entre a universidade e a minha casa. Lembro de sair da aula às nove da noite, beber uma cerveja às quartas ou quintas e, em seguida, vestir o casaco quentinho com capuz enquanto dava play no Spotify. A playlist era quase sempre a mesma - repleta das músicas que me lembravam o destinatário das mensagens que eu enviava pelo caminho.

Caminhava quase toda a calle Cartagena, virava em uma das suas entradas à direita e chegava no meu prédio. Eu, que sempre morei em casa, estranhava a espera pelo elevador. Tirava o capuz e podia sentir que o meu rosto estava gelado. De certa forma, eu adorava o frio seco de Madrid - me fazia sentir viva.

Calentaba a comida que a minha mãe-postiça deixava dentro do microondas, que só foi comprado por minha causa, e corria para o quarto. Ele tinha pintado em uma das paredes uma linda paisagem e, na outra, havia um guarda-roupa que a ocupava quase que inteira, cheio de espelhos. O edredom era sempre quentinho - me esquentava por inteira nas noites em que eu dormia bêbada e nua.

Eu demorava para dormir porque nunca conseguia me desligar do fuso-horário brasileiro. Tomava uma ducha quente de madrugada, antes de deitar, enquanto esperava uma mensagem de "boa noite" ou "estou indo para casa" para, enfim, apagar a luz - o que continua igual.

Era uma rotina sem grandes aventuras ou surpresas. Acordava tarde, lia os jornais, fazia um ou outro trabalho, às vezes saía para correr e, independente do que fizesse, estava sempre atrasada para me trocar e ir à aula - e enfrentar os vinte minutos de caminhada que se tornavam quase uma corrida.

Era uma vida comum. E me lembro de quantas noites percorri aquela rua aos prantos enquanto dizia a uma ou outra amiga: essa não é a minha vida. Mas era. Foi. E que saudade que bate às vezes.

De tudo que eu vivi, entre viagens, lugares e experiências, o que faz o coração apertar de saudade é isso: o sentimento de pertencer. Eu pertenci a Madrid. Madrid pertenceu a mim. E talvez a gente sempre pertença uma a outra.

Vira e mexe alguém me pergunta e aqueles nove meses parece que aconteceram em outra vida. É tudo tão longínquo, tão fora da realidade... Será que era mesmo eu? E então eu lembro e quase posso sentir aquele frio seco cortando meu rosto. E sei que sim: Madrid é a vida passada da qual me lembro mais.

Não duvido nem por um instante que o melhor que fiz foi voltar. Mas que bom foi ter ido. Te extraño, Madrid.

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