quinta-feira, 25 de maio de 2017

Não há inocentes


Ela me disse que, pelo que eu contava, as coisas pareciam finalmente estar se ajeitando. Eu sorri por dentro. Aquele sorriso que desperta o frio e o calor nas estranhas. Um sorriso de quem aquiesce ao mesmo tempo que discorda com todo o corpo. Pensei: será que nós, logo nós, acreditamos nisso? Me parece que apenas queremos - e como queremos - acreditar.

Será que um dia as coisas se ajeitam pra gente como nós? Será que ainda não aprendemos que, sim, elas se acomodam, mas que logo encontramos um jeito de bagunçá-las até que desmoronem? Será que gente como nós, que deixou pedaços de si por aí, com outro alguém, consegue um dia, de verdade, se sentir plena, inteira, bem?

Há dias que sim. Aqueles em que as formas parecem se ajeitar perfeitamente nos espaços. Em que o sol que brilha no céu queima a pele sem nos atravessar. Em que a chuva escorre pelos ombros, não resfria o nosso interior. Há dias em que, sim, o mundo está em ordem.

Em outros, no entanto, as vísceras gritam. Como loucas, repetem incessantemente que não se esqueceram. Não se esqueceram do que sentiram, da adrenalina que as percorreu, do curto-circuito que se faz memória recente, ainda que tenha acontecido há tanto tempo. É quase como se o estranhassem, pedissem por ele.

Sofrer, no final das contas, parece um vício. E gente como nós morre se o larga, morre também se o mantém. Colocamos a culpa no que poderia ser o tabaco, o álcool, a heroína, mas sabemos que, no fundo, ela é nossa. Não há inocentes.

Pode ser que as coisas estejam, sim, finalmente se ajeitando. Torço para que, pelo menos dessa vez, a gente demore menos para fazê-las desmoronar. Gente como a gente tem jeito, não.





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